10 de abril de 2024

RIVAL SEMPRE MAMOU NAS TETAS DO ESTADO

No final do século XIX, os remadores rubro-negros, às vezes, usavam o píer da presidência da República para lançar os barcos na Baía de Guanabara, tirando proveito da vizinhança entre o Palácio do Catete e o casarão que servia de sede\garagem do clube, cujos atletas eram todos estudantes ricos, brancos, os legítimos filhos da burguesia.

Desde então, parece que o Flamengo se considera no direito de obter benefícios públicos.

De Pedro Ernesto a Witzel e Claudio Castro, são muitos os favorecimentos. Ao usurpar o Maracanã, o Flamengo - junto ao Fluminense – ignora o disparate que é discriminar a imensa torcida do Vasco em um estádio público, que custou R$ 1,2 bilhão – sem contar os sacos de dinheiro utilizados desde 1950 em manutenção e incontáveis reformas, de todos os contribuintes cariocas, inclusive muitos milhões de vascaínos, vivos e mortos.

Em 1921, segundo o Correio da Manhã, deputados tramaram para que o Flamengo recebesse do Governo federal um empréstimo para a construção do seu estádio. “O stadium da Praia Vermelha, com piscina monumental, será muito em breve uma esplêndida realidade”. O jornal considerava a iniciativa de interesse nacional: “Os poderes públicos o desoneraria (...), permitindo-lhe iniciar entre nós a cultura física”. Deu errado porque o local é área militar e o Ministério da Guerra detonou a investida.

O Flamengo – que, antes, sonhava com a Praia Vermelha - em 1926 ocupou 34.120m quadrados na Gávea, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Uma invasão. Na época, havia nas proximidades uma favela, aniquilada por incêndio criminoso nos anos 60, durante a gestão do flamenguista e governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Hoje, as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas são uma das localidades mais valorizadas pelo mercado imobiliário no Brasil.

Neste mesmo ano de 1926, a prefeitura do Distrito Federal também doou ao Botafogo o terreno para que este construísse a sua sede – o palacete de General Severiano. O Vasco não teve boa vida: precisou comprar um terreno em São Cristóvão, zona norte, para levantar o seu monumental estádio.

No ano seguinte, é negado ao Vasco pelo presidente da República, Washington Luís, a importação de cimento belga, sabendo que o país não dispunha de quantidade para uma obra da envergadura de São Januário. Pouco antes, havia liberado o produto para a construção do Jockey Club Brasileiro - espaço da elite (Fla-Flu) -, no Jardim Botânico.

O último jogo do Flamengo na Rua Paysandu foi em 1932. Depois, peregrinou em Laranjeiras e General Severiano. Enquanto isso, o interventor Pedro Ernesto, prefeito do Distrito Federal (1931-1936) nomeado por Getúlio Vargas, oferecia ao rival inúmeras vantagens: em 1933, o aforamento do terreno invadido em 1926, e a liberação de empréstimos para a construção, no local, do Estádio da Gávea – inaugurado em 1938 (Fla 0x2 Vasco).

No Natal de 1935, Pedro Ernesto articula para que o Flu repasse ao Fla o terreno próximo ao Morro da Viúva, para a construção de um ginásio. Grato por tanta gentileza, em troca, o presidente Bastos Padilha concedeu a Getúlio o título de “presidente do honra” do Flamengo.

O terreno fora doado em 1916 pela Marinha de Guerra ao Fluminense, e lá deveria ter sido construída a sede náutica do fidalgo.

Desde sempre o Flamengo forja a associação de si ao conceito de “nação” – fundado a 17 de novembro, os pioneiros acharam por bem mudar para 15 de novembro, coincidindo, assim, com a Proclamação de República.

A partir de meados da década de 1930, ações de marketing partiam do Jornal dos Sports: por civismo, antes de um Fla-Flu, em Laranjeiras, a torcida cantou o hino nacional, fazendo valer recente lei do Estado Novo. Nas páginas do periódico, era comum a relação entre Brasil e Flamengo.

Em 1936, o clube promove um concurso de fotografia, chamado “Uma vez Flamengo, sempre... tudo pelo Brasil”, com patrocínio do Jornal dos Sports. Roberto Marinho concorre, mas o clique vencedor é o de Hans Peter Lange: dois operários na construção do Estádio da Gávea – o “novo” perfil para as novas gerações de flamenguistas. Em 1937, a vencedora foi a de um torcedor com as bandeiras do Brasil e do Flamengo às mãos.

Getúlio Vargas e Eurico Dutra colaboraram com o Flamengo. Vargas concedeu um generoso empréstimo, a juros baixos. Dutra, ao assumir a presidência da República, não custou a doar ao clube de coração – do qual era associado - um valioso terreno no Centro da cidade. Também foi parcial na comemoração do 1º de maio no primeiro ano de governo: em um amistoso Flamengo x São Paulo, disputado em São Januário.

No terreno próximo ao Morro da Viúva foi construída a nova sede social do Flamengo nos quatro primeiros andares de um prédio enorme. O rival teve o apoio de Dutra para a liberação de um empréstimo de Cr$ 40 milhões da Companhia SulAmérica de Seguros. Em 1953, foi inaugurado. Vinte andares, 148 apartamentos para alugar na zona sul – nada mau em se tratando de um clube esportivo. Em 2017, o vendeu a uma imobiliária por R$ 112 milhões.

O negócio foi possível graças à intervenção do prefeito Marcelo Crivella, ao aprovar lei permitindo que o imóvel se tornasse um “empreendimento comercial”. O queridinho do sistema ainda mantém 44 apartamentos por lá.

Das poucas derrotas do Flamengo na queda de braço com governantes – em qualquer esfera – foi na década de 1950, quando os deputados do Distrito Federal e, depois, da Guanabara - e não os clubes! - decidiam sobre os preços dos ingressos no Maracanã. O impasse atravessou as gestões de Negrão de Lima (PSD) e Carlos Lacerda (UDN) na prefeitura, ao ponto de o presidente Juscelino Kubitschek (PSD) sugerir a federalização.

PONTA DIREITA

Em 1945, com a queda do Estado Novo e a redemocratização do Brasil, flamenguistas ilustres – Ary Barroso, Bastos Padilha, Zé Lins do Rego –, se filiam à UDN – o grande partido conservador da direita. Ary Barroso foi correligionário do golpista Carlos Lacerda. No entanto, muitos associados do Flamengo ficaram com Getúlio Vargas (PTB) devido ao seu apoio a Eurico Dutra, benemérito do clube, para a presidência da República.

O jornalista Sebastião Nery, no livro Folclore Político, relatou:

“Na crise que corroía o governo de Getúlio Vargas e que antecedeu ao suicídio (1954), o flamenguista Carlos Lacerda solicitou ao general Canrobert, torcedor do São Cristóvão, que depusesse Vargas. Canrobert: “Não ajudo a botar tanque na rua (...) só se vier para o Exército tudo quanto é moção. Todo mundo pedindo, até o Clube de Regatas do Flamengo”. Lacerda levou ao pé da letra e, para surpresa do general, obteve do seu clube de coração uma moção solicitando a renúncia do presidente”...

Em 1959, o flamenguista Carlinhos Niemeyer, dono do ótimo Canal 100, é contratado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) – de caráter privado - para exibir curtas-metragens de futebol antes dos filmes em todos os cinemas do Rio, em 35mm, em qualquer circunstância pró-Flamengo e anti-Vasco. O IPES era bancado pelo Estados Unidos para combater o “comunismo”. Agiu em favor do golpe de 1964: conspirou, pesquisou, fez documentários, filmes publicitários etc. contra o ex-presidente João Goulart.

Nos anos 70, a torcida do Flamengo adotaria uma versão da música de campanha do Governo federal, em tempos de ditadura militar: “Ó, meu Brasil\ eu gosto de você\ quero cantar ao mundo inteiro\ a alegria de ser brasileiro”... O presidente Emilio Garrastazu Médici, como Dutra, foi sócio do rival.

Os cartolas de hoje, como o presidente Rodolfo Landim e o vice de futebol Marcos Brás – ambos envolvidos em questões policiais e com a Justiça -  apreciavam a presença do amigo deles e ex-presidente da República, Jair Bolsonaro (FOTO), nos jogos.

O SISTEMA

O poder do Flamengo se manifesta nas autarquias. Como em 1979, quando atropelou uma determinação do Conselho Nacional de Desportos (CND) para se sagrar tricampeão carioca em dois anos.

Milagre? Claro não...

Embora a Guanabara e o Rio de Janeiro tenham se unido em 1975, a Federação Carioca de Futebol (FCF) e a Federação Fluminense de Futebol (FFF) continuaram separadas até 1978. Em 1976 e 1977, três do interior (Americano, Goytacaz e Volta Redonda) jogaram o Campeonato Carioca, convidados, e um acordo foi costurado para que aumentasse para seis em 78. Isto não caiu bem e gerou a exclusão de Americano, Goytacaz e Volta Redonda do campeonato de 1978 (no segundo semestre). A FFF apelou à Justiça e paralisou a competição. A pendenga acabou com a intervenção do CND, que fundiu a FCF e a FFF, fazendo surgir a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), obrigada – em 1978! – a organizar a competição unificada: o I Campeonato do Estado do Rio de Janeiro, com fase final em fevereiro de 1979: seis da capital e quatro do interior. Esta fase, porém, iria se transformar em campeonato à parte (“Especial”), já que o Flamengo propôs à FERJ – ignorando o CND - que o campeonato unificado ficasse para 1979. Motivo: o risco de ver o título da fase classificatória de 78 – 1x0 sobre o Vasco, gol de Rondinelli – varrido da história. O impasse acaba no Conselho Arbitral de 23 de janeiro de 1979, no qual o Flamengo perde por 9x8, não aceita, provoca no grito a suspensão do mesmo e a marcação de nova reunião para o dia seguinte, quando - de forma esquisita - convence o Madureira a mudar o seu voto, ganha por 9x8 e transforma a ex-fase final de 1978 num campeonato à parte em 1979. 

O Flamengo voltou a ser favorecido pelo Governo federal em 1984. Com a publicidade, enfim, liberada pelo CND, o Vasco fechou com a “Bandeirante Seguros” um contrato curto, pontual, enquanto o rival passou a ser patrocinado pela “Petrobras” (LUBRAX). Companhia estatal – por longos 25 anos (até 2009) inundando-o com dinheiro público. O seu. O dos vascaínos. O de todos. Em 2013, outra estatal – a Caixa Econômica Federal – passou a patrociná-lo, até 2019. A atual mamata pública vem do Banco de Brasília.

Ex-executivo do BNDES, o então presidente do Flamengo, Bandeira de Mello, fechou com um patrocinador: a Peugeot. Eis que o BNDES liberou financiamento de R$ 154 milhões à Peugeot Citroën do Brasil. Em 2015, com o fim deste contrato, a Jeep (Fiat Chrysler Automobiles) passou a patrocinar o rival. Logo, foi contemplada com empréstimo de R$ 3 bilhões. Coincidência. Inclusive, porque Bandeira não era do setor comercial e nem sequer participou das negociações. 

Na Justiça e nas delegacias o Flamengo também é poderoso. Há incontáveis exemplos – como esses:

Em 1986, o Caso das Papeletas Amarelas - o presidente do clube, George Helal, admitiu que Cz$ 300 mil do clube foram parar na conta do diretor de arbitragem da FERJ, Paulo Antunes. Segundo a revista Placar tratava-se de suborno para ser favorecido contra os times “pequenos”. O Ministério Público-RJ e a policia investigaram (!), sem conclusão de que houve crime. O caixa-dois envolvia Cz$ 4 milhões e houve desdobramentos jurídicos.

Em 2019, o Assassinato do Ninho do Urubu - incêndio em containers usados como dormitório resultou na morte de dez jovens das categorias de base. Ninguém foi preso, e nem sequer o clube – os cartolas estavam cientes do risco - foi punido.

O caso tramita a passos de tartaruga na 36ª Vara Criminal.

O “ninho” se chama Centro de Treinamento George Helal.

8 de abril de 2024

                                                                  


VIVA OS ESTÁDIOS PÚBLICOS

Nenhum estádio do planeta custou tanto quanto a “Arena Maracanã” – R$ 1,2 bilhão, superfaturados – e nem foi construído por governos e logo depois repassado à iniciativa privada, em especial para clubes de futebol e, mais especificamente, em cidades onde outros clubes, rivais, excluídos da transação, pudessem se sentir prejudicados. 

A “Arena Maracanã”, ou o “novo” Maracanã, tem 78.838 lugares, mas lota com 70.000 - não figura, sequer, na lista dos vinte maiores do planeta.

A atual licitação só acontece porque o governador e flamenguista Claudio Castro (PL) descartou a possibilidade de estatizá-lo, sob a gestão da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (SUDERJ).

Mal sabe Castro que os grandes estádios raramente são particulares.

A maioria é estatal\ público, como o Giuseppe Meazza, em Milão, o Diego Maradona, em Nápoles, na Itália, o Los Angeles Memorial Coliseum etc.

Entre os doze maiores, cinco pertencem a governos, três a federações, dois, a universidades (EUA), um, a clube de futebol e um é particular.

A gestão do Maracanã era da Administração do Estádio Municipal (ADEM). Com a passagem da capital para Brasília, em 1960 passou a ser controlado pela Administração dos Estádios da Guanabara (ADEG). Ao ingressar já sem vida no Instituto Médico Legal, em 2010, era de responsabilidade da SUDERJ.

Doze maiores:

1) Estádio Rungrado Primeiro de Maio, em Pyongyang, Coréia do Norte (FOTO) – dono: governo federal; 2) Michigan Stadium, em Michigan, EUA – dono: universidade; 3) Melbourne Cricket Ground, em Melbourne, Austrália – dono: governo estadual; 4) Nou Camp, Barcelona, Espanha – dono: Barcelona; 5) FNB Stadium, em Johanesburgo, África do Sul – dono: prefeitura; 6) Rose Bowl Stadium, em Pasadena, EUA – dono: universidade; 7) Wembley, Londres, Inglaterra – dono: federação; 8) Estádio Azteca, Cidade do México – dono: Televisa; 9) Estádio Nacional Bukit Jalil, Kuala Lumpur, Malásia – dono: prefeitura; 10) Estádio Nacional de Lusail, Catar – dono: federação; 11) Estádio Borg El Arab, Alexandria, Egito – dono: prefeitura; 12) Estádio Salt Lake, Calcutá, Índia – dono: federação. 

7 de abril de 2024

RACISMO: O CENTENÁRIO DA RESPOSTA HISTÓRICA



Há um século, no dia 7 de abril de 1924, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, remeteu ao presidente da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (AMEA) e do Fluminense, Arnaldo Guinle, uma carta – a Resposta Histórica – que rompeu a estrutura do foot-ball brasileiro. Através dela, o clube abria mão de participar do campeonato organizado pela liga dos “grandes”, com seus players e torcedores brancos. Isto porque se viu forçado a excluir 12 jogadores – a maioria de pobres e negros. Além do mais, os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco – campeão carioca de 1923! - só tinha o remo e deveria ser rebaixado, com Mangueira e Andarahy...

Em sua estreia na primeira divisão, em 1923, o Vasco conquistou o título com jogadores das classes populares. Não foi o primeiro a ter pobres ou pretos, mas foi o primeiro a esmagar os que se julgavam a fina flor da sociedade.

Naqueles tempos de racismo e xenofobia na capital da República – exacerbados, após os festejos pelo Centenário da Independência do Brasil (1922) - a proeza dos Camisas Negras foi tão marcante quanto a do preto Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burns, em 1908. Antes, o boxe era segregado no Estados Unidos. Ou a de Jessé Owens calando o Estádio Olímpico de Berlim, repleto de nazistas, em 1936.

Enquanto se derrubava um símbolo da cidade – o Morro do Castelo – pobre, luso-africana, para dar lugar ao “futuro”, surgia um time de foot-ball – o sport da modernidade – exatamente com a imagem que a elite pretendia sepultar... O Vasco expressava o triunfo da associação trem-subúrbio-pobre sobre carro importado-zona sul- vida moderna.

O regulamento da AMEA, criada por Flamengo, Fluminense e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.) ou passível de receber gorjetas. 

A Resposta Histórica se transformou em marca do Vasco, eternizando-o como defensor dos valores democráticos, da inclusão social e contra o racismo. Como observa o geógrafo Leandro Fontes, tornou público, com rara precisão e originalidade, a natureza antagônica do Vasco e dos fundadores da AMEA.

O Vasco forçou a integração dos desportistas negros e operários, algo inconcebível para os rivais naquela época. Exemplo disso foi a eleição para presidente, em 1904, do funcionário da Central do Brasil, Candido José de Araújo - o primeiro presidente negro entre os “grandes”. 

ANTECEDENTES

A Liga Metropolitana de Football (LMF) promoveu o primeiro Campeonato Carioca, em 1906. O presidente da LMF era Francis Henry Walter, um inglês ricaço, dono da firma de comércio exterior Walter Brothers & Company. Presidente do Fluminense de 1903 até 1908, ele também foi sócio, atleta e presidente do Flamengo, em 1905-1906, tendo sido, portanto, o mandatário dos coirmãos Fla-Flu ao mesmo tempo.

O glamour não resistiu a Bangu. Dos sete mil habitantes, 1.417 do bairro da zona norte batiam ponto na Companhia Progresso Industrial do Brasil. O Paiz: “torcem fervorosamente”. Surpresos com a recepção que tiveram, os “grandes” desistiram da LMF para fundar a Liga Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA), presidida, é claro, por Francis Henry Walter.

Regulamento: “A directoria da Liga resolveu, por unanimidade de votos, que não sejam registrados, como amadores, as PESSOAS DE CÔR. (...)” - 22 de maio de 1907. 

REGATAS

Sob a influência de Botafogo, Flamengo e Guanabara, a Federação Brasileira das Sociedades do Remo (FBSR) resolveu pressionar o Vasco a partir de 1904.

Com as guarnições vascaínas formadas por imigrantes portugueses e brasileiros pobres, empregados no comércio, a FBSR tentou proibir - sem sucesso, devido à intervenção do Vasco -, que os remadores trabalhassem em hotéis, botequins, cafés, quiosques, armazéns de secos e molhados, cervejarias, confeitarias, charutarias, bilhares, casas de leite, sorvetes e bebidas, casas de barbeiro e cabeleireiro, agências de locação de criados ou bilhetes de loterias etc.

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. 

Na era dourada do remo, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Em 1914, alegando que Claudionor Provenzano não era amador, a FBSR o elimina, mas o Vasco reverte a decisão. Claudionor não tinha a boa vida dos remadores dos rivais e recebia ajuda de custo. No fundo, uma reação da elite – no ano seguinte, é baixada uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos: naturalmente o Vasco, tricampeão.

ENTRELINHAS

A LMF foi dissolvida no final de 1907, por questões esportivas envolvendo Fluminense e Botafogo, mas quase nada mudou com a inauguração da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (LMSA): players de cor preta e brancos pobres continuavam preteridos. As invés de proibirem de forma direta, os passam a se utilizar dos estatutos, graças a regras que davam margem para interpretações de uma comissão de sindicância.

Em 1917, a LMSA vira Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e o estatuto apresenta uma novidade para ajudar o trabalho da comissão de sindicância: o analfabetismo torna-se um quesito para impedir a entrada ou excluir jogadores. No início do século XX, a maior parte da população brasileira era analfabeta, especialmente os de pele preta.

PRIMEIROS CHUTES

O Vasco institui o seu departamento de futebol em 1916. Estreia na terceira divisão da LMSA e só chega à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) Fluminense.

Enquanto a principal liga – a LMDT - era controlada pelos “grandes”, havia outras, como a Associação Athletica Suburbana e a Liga Suburbana de Football. Jogos no campo do Jardim Botânico reuniam multidões. Foi neste celeiro que o Vasco montou o seu time – o critério de escolha era ser bom de bola, seja qual fosse a cor, a etnia ou a condição financeira.

Inclusão social que acontecia desde sempre, no remo.

O Vasco da Rua Santa Luzia abria suas portas aos jogadores dos clubes pequenos e agremiações dos subúrbios, e, a cada ano, os Camisas Negras se qualificavam. Em 1921, o clube alugou o campo da Rua Morais e Silva, na Tijuca, ao Sport Club Rio de Janeiro, para treinos e jogos.

SEGUNDA DIVISÃO

O ano de 1922 marcou o Centenário da Independência do Brasil, tempo em que a intelectualidade e mesmo o Estado pregavam a teoria racial do embranquecimento da sociedade. Crescia o preconceito contra imigrantes portugueses - em sua maioria, pobres e de baixa instrução: os vascaínos... Foi neste cenário que o Vasco – com um time repleto de players negros e pobres – conquistou o título carioca da segunda divisão.

Para subir à primeira divisão, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). A 5 de novembro de 1922, o jogo ficou no 0x0, o que provocava a realização de um tira-teima.

Uma questão atravessou o campeonato: a LMDT recebera denúncia de que Leitão, do Vasco, era analfabeto e sua inscrição estaria irregular. Ele foi convocado a escrever uma carta - diante dos cartolas. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. Os elitistas mal sabiam que o player tivera aulas de Língua Portuguesa. A imprensa se posicionou a favor do Vasco.

Depois de muita briga, a LMDT resolve não organizar o jogo-desempate, decreta o América campeão do Rio de Janeiro, não rebaixa o São Cristóvão e o Vasco obtém o acesso à primeira divisão.

ALFABETIZAÇÃO

Logo em sua estreia na primeira  divisão, o Vasco conquista o título de campeão carioca de 1923. Em campo, com uma campanha avassaladora. Fora de campo, graças ao associado Custódio Moura. Bibliotecário do clube, ele  ensinava, de graça, os jogadores a ler e a escrever. A LMDT perseguia os vascaínos por causa do analfabetismo e seus cartolas frustraram-se quando os players, mesmo que sem boa ortografia, escreveram os dados solicitados e o pedido de inscrição.

No primeiro Clássico dos Milhões, Vasco 3x1, de virada, na Rua Paysandu, o Flamengo tentou - sem sucesso - anular o jogo na LMDT sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, em condição irregular. 

O Correio da Manhã toma partido do time da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

REVOLTA DAS ELITES

Após a conquista do título de 1923 pelos Camisas Negras, os clubes da elite rompem com a LMDT e criam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA), cuja comissão organizadora trabalhava na sede do Fluminense. Fundadores: América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e o Bangu. O Vasco, então o campeão, com a maior torcida – e as maiores rendas – foi sumariamente excluído.

A comissão na AMEA se reuniu a 30 de março de 1924 e decidiu solicitar que o Vasco excluísse 12 de seus jogadores. O objetivo era impedi-lo de ser campeão com jogadores das camadas populares. O presidente do Vasco, José Augusto Prestes, ainda participou de uma reunião com a comissão organizadora, em uma última tentativa para dissolver o impasse.

Deu errado. No dia seguinte, a AMEA fez publicar nos jornais as resoluções que colocavam o Vasco em desvantagem. Queriam-no sem os pretos e pobres, em posição secundária. A 7 de abril de 1924, com o apoio unânime da diretoria,  José Augusto Prestes assinou o Ofício n.º 261 - a “Resposta Histórica”.

O Clube desistia de fazer parte da AMEA e ficaria com seus jogadores.

SÃO JANUÁRIO

Vasco e Flamengo já tinham seus terrenos – um comprado (665.895 contos de réis por 65.445m quadrados, em São Cristóvão); o outro, invadido. A alegação de que o Vasco não estava à altura dos “grandes” por não ter um estádio levou os vascaínos a inaugurarem São Januário, em 1926, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).

Definitivamente, o clube mudava de endereço, do Centro da cidade para a zona norte. 

A RESPOSTA HISTÓRICA NOS TRAÇOS DE ZIRALDO


MISSIVA SUBVERSIVA: A RÉPLICA DO PLAYBOY

A RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924. Ofício nr. 261 Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle (FOTO) M. D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). 

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número de nossos associados. Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a deve aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consórcios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923. São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. Nesses termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA. Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V. Exa. At. Vnr. Obrigado (a) Dr. José Augusto Prestes. Presidente.


RÉPLICA À RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 17 de abril de 1924. Exmo. Sr. José Augusto Prestes, 

Accusando o recebimento do officio desse club, datado de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], que se nos chegou às mãos no dia 11, prevalecemo-nos desta opportunidade para fazer algumas considerações sobre o que ali se diz a respeito da primeira e única entrevista que tivemos com V. Ex. Com referencia ao primeiro paragrapho, devo dizer que as resoluções divulgadas pela imprensa não podiam ter sido levadas ao vosso conhecimento pela leitura de jornaes, porquanto, na entrevista acima alludida, tivemos occasião de lêr integralmente o documento que foi posteriormente publicado, depois do que, demos sobre elle, todas as explicações necessárias. Não houve, portanto, como parece se inferir desta parte do vosso officio, sonegação de informações que uma vez conhecidas pudessem modificar a attitude do Club de Regatas Vasco da Gama. Quanto ao segundo paragrapho, cumpre-me observar que a organização da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos já era conhecida de V. Ex., antes do pedido de filiação desse club, datado de 15 de março ultimo, porquanto os presentes estatutos são, por assim dizer, os mesmos que foram apresentados à Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, dos quaes V. Ex. tomou conhecimento, por isso sobre elle exerceu a sua critica no seio daquella instituição. Ora, já nesse projecto os direitos dos clubs, actualmente fundadores da A. M. E. A. não eram os mesmos concedidos ao club por V. Ex. dirigido. Por esta razão, foi com surpresa que lemos o 2o paragrapho do referido officio, cujo conceito se nos afigura sobremodo tardio. Quanto ao 3o paragrapho, o Club de Regatas Vasco da Gama labora em evidente erro, porquanto a Commissão Organizadora nunca poderia ter negado a quem quer que fosse o direito de defesa e isto mesmo foi declarado a V. Ex. pelo signatário do presente officio. Declaramos então que uma vez filiado, o Club de Regatas Vasco da Gama entraria com um novo officio, demonstrando satisfazerem, os seus jogadores, a todas as condições legaes do amadorismo e que, uma vez provada a improcedencia da syndicancia feita pela A. M. E. A., as respectivas inscripções seriam concedidas. Dissemos mais, que se havia, naquelle momento, discrepancias entre as informações fornecidas por esse club e a syndicancia por nós realizada, a responsabilidade dahi decorrente recaia exclusivamente sobre o Club de Regatas Vasco da Gama, e que, como o mesmo acontecia aos demais clubs, tonava-se impossivel discutirmos todos esses casos particulares naquelle momento, dada a exiguidade de tempo que nos separava do inicio dos campeonato officiaes da actual temporada sportiva. Achamos, portanto, que melhor seria organizar a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos para em seguida tratarmos desses casos particulares. Finalmente, dissemos a V. Ex. que embora estivessemos promptos a attender aos reclamos do vosso club a este respeito, alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular. A isto retorquiu V. Ex. não ser possivel, visto como o regimen de trabalho pesado do commercio portuguez não permittia que os seus empregados deixassem as suas occupações para se entregar ao preparo indispensavel aos jogos dos campeonatos officiaes da A. M. E. A. Eis porque, Sr. presidente, tomando conhecimento do officio de V. Ex., de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], lastimamos que a boa acolhida que mereceram os nossos conceitos por parte de V. Ex. não tivessem se traduzido posteriormente numa acção de solidariedade do vosso club, para com aquelles que souberam, nas primeiras horas de actividade nos sports terrestres desse valoroso gremio, estender-lhe a mão para, à sombra desta boa vontade, sympathia e solicitude, crescer na sua estima e consideração. Permitta V. Ex., sem outro motivo, que me subscreva com toda a consideração e estima, o criado, attento e obrigado. Arnaldo Guinle, presidente da Comissão Organizadora.

PRECONCEITO EXPLÍCITO

(...) alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle [o Vasco da Gama] fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular (Ofício da AMEA em réplica à Resposta Histórica, de 17 de abril de 1924).

Havia o interesse dos cartolas da AMEA que o Vasco formasse times só com portugueses, ao estilo do Luzitania S.C. Assim, o embate que eles sonhavam contra os “grandes” da época (só tinham jogadores brancos), em uma concepção racialista, seria um confronto de raças: “portuguesa” x “brasileira”.

Além disso, o documento da AMEA expõe o desejo de colocar o Vasco como um clube exclusivo de portugueses, sem os negros, e o interesse dos dirigentes da nova liga em estigmatizá-lo como um pária estrangeiro, que atuava contra os “legítimos clubes brasileiros”.

Logo o Vasco da Gama! O mais brasileiro dos “grandes” do Rio de Janeiro, aquele que melhor representava – e ainda representa - a diversidade da população.

 


EM 1923, FLA RECORREU À JUSTIÇA CONTRA VASCAÍNO ANALFABETO

No primeiro “Clássico dos Milhões”, dia 29 de abril de 1923, na Rua Paysandu, Junqueira abriu o placar para o Flamengo, mas o Vasco virou com Cecy (2) e Arlindo, ganhando por 3x1. Isso em sua estreia na divisão principal e com um time de players pretos, pobres e analfabetos – proibidos no regulamento. O placar o manteve na liderava o Campeonato Carioca – proeza inaceitável para os que se julgavam a nata da sociedade. O Flamengo tentou anular o jogo na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, portanto, em condição irregular.

O Correio da Manhã tomou partido do clube da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

Mesmo dominada pela dupla Fla-Flu, América e Botafogo, a liga deu ganho de causa ao Vasco, que não perdeu os dois pontos da vitória.

GRAMÁTICA

O tapetão da LMDT prejudicou o Vasco na segunda divisão.

Em 1920, o Carioca F.C. promoveu uma campanha na imprensa contra a escalação de Quintanilha e Esquerdinha, acusando-os de profissionais. A liga os excluiu, expondo a má vontade dos clubes da zona sul. Impedido de escalar os dois, o time perde por 2x0 e 2x1, se afastando do título. Antes, o Vasco 4x1 Carioca F.C., no turno, tinha sido anulado devido à escalação irregular de Leão.  

Em 1922, a LMDT recebeu denúncia de que o player Leitão era analfabeto e o convocou a escrever uma carta - diante dos cartolas. Era demais. A questão atravessou o Campeonato Carioca da segunda divisão. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Porém, Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. A imprensa se posicionou a favor do Vasco. Um mês depois, a LMDT acatou o recurso, confirmando o título de campeão.

Para subir à primeira divisão de 1923, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). Isso aconteceu e, outra vez, Leitão foi colocado na chapa. Os elitistas mal sabiam que ele tivera aulas de Língua Portuguesa e, diante dos inquisidores, fez sua inscrição em duas etapas: a ficha e o requerimento para jogar.

No livro O Negro do Futebol Brasileiro, Mario Filho revela: “A inscrição tornou-se um exame de primeiras letras. (...) nome, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalhou”... Aulas particulares de Língua Portuguesa não bastavam: Leitão, Paschoal, Torterolli e Mingote tiveram de frequentar uma escola, na Rua da Quitanda.      

A elite não engolia o Vasco – seus pretos, mestiços e brancos pobres – e criou uma comissão de sindicância – Reis Carneiro, do Flu, Diocesano Gomes, do Fla e Armando de Paula Freitas, do América. Bastava provar que era analfabeto ou não trabalhava para o player ser excluído. Pelo regulamento, só estudantes podiam não trabalhar, ou seja, os filhos de boa família.

Artigo publicado na revista Sport retrata o sentimento dos rivais do Vasco, nas primeiras décadas do século XX:

“(...) Frequentamos uma academia, temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval, jantamos no Rotisserie, visitamos as conferências literárias, vamos ao Five O’clock; mas quando nós resolvemos a praticar esporte às vezes somos obrigados a jogar com um operário, limador, mecânico, chofer e profissões que absolutamente não estão em relação ao meio onde vivemos. Nesse caso a prática torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão”.

SUBVERSÃO

No segundo Clássico dos Milhões, em Laranjeiras, os torcedores (brancos) dos “grandes” se uniram na arquibancada contra o time indesejado. Um gol mal anulado pelo juiz Carlito Rocha, futuro presidente do Botafogo, decretou a derrota do Vasco por 3x2 para o Flamengo. O Fluminense, tendo na presidência do ricaço Arnaldo Guinle, cobrou dez mil contos de reis por supostos estragos cometidos por vascaínos no seu estádio.

Mario Filho, sobre a comemoração: “Depois do jogo, os torcedores do Flamengo (...) compram uma réplica de tamanco de 2,5m, levada no primeiro carro da comitiva de mais de cem automóveis. (...) Praia do Flamengo, Glória, Largo da Lapa, para jogar bombas no Bar Capela, Avenida Mem de Sá, Rua Evaristo na Veiga, Avenida Rio Branco, Rua Larga, Rua Visconde de Itaúna, Praça Onze, para jogar bombas da Cervejaria Vitória. (...)”.

O que aconteceu de nada teve de brincadeira, como destaca o geólogo Fernando Ferreira, ressaltando o caráter racista, elitista e xenófobo da carreata, na perseguição ao preto, ao pobre e ao português.

O fim da escravidão e do Império tinha pouco mais de três décadas. O racismo e a aversão aos portugueses ainda impregnavam a sociedade.

A estrutura montada pela elite – e para a elite - no foot-ball do então Distrito Federal também seria quebrada em 1926, pelo São Cristóvão, e em 1933, pelo Bangu, mas só o Vasco tornou-se “grande”.

As famílias, que da missa iam diretamente para o estádio de Laranjeiras, agora dividiam os espaços com os portugueses e seus empregados, pobres, o que era – e ainda é – o exemplo é a LICITAÇÃO DO MARACANÃ, com a tentativa de exclusão da torcida de perfil suburbano (popular) - uma subversão da hierarquia social.

PRETO ZÉ NÃO DANÇAVA POR TIMIDEZ

Na década de 1930, as mensalidades e joias caras afastavam as classes populares do Flamengo. Os pretos. Entre os associados havia raras exceções, como esta, narrada pelo jornalista Mario Filho: “Zé Augusto tinha ido para o Flamengo ainda garoto. Era garoto, garoto não fazia mal que fosse preto. Mas o garoto cresceu, aí o Flamengo reparou na cor dele. Não tinha nada contra ele, pena que ele não fosse branco. Zé Augusto nunca mais apareceu no rinque de patinação. O rinque de patinação era mais do futebol. Como não se metia a jogar futebol, Zé Augusto não se metia a dançar. Ele só ficava no Flamengo porque não jogava futebol e não dançava, isto é, não chamava muita atenção”.

Foi por esta época que Jarbas, em 1933, se tornou o primeiro jogador preto (e pobre) titular no time principal do Flamengo, após a implantação do profissionalismo - por boas rendas, a cor da pele não importava - e mais de duas décadas da adoção do futebol. Antes, só jogadores brancos e de boas famílias - semelhante à composição da própria torcida rubro-negra - tinham vestido a camisa do rival. 

A popularidade do Flamengo só deu as caras a partir da segunda parte dos anos 30 e na década seguinte, graças à FlaPress e ao seu visionário presidente Bastos Padilha. Até então, como o próprio Padilha lembraria um dia, as duas maiores torcidas na capital da República eram as de Vasco e América.

Os flamenguistas sentiam-se forasteiros na zona norte. No 4x4 com o Olaria, em 1932, por exemplo, um cartola reclamou: “Pedi ao nosso diretor que mandasse guarnecer o nosso arqueiro, pois os assistentes lhe arremessavam tudo: pedras, cascas de laranja, garrafas”.

Mario Filho: “O time precisava levar seus torcedores, pois não tinha os locais. Cruzavam a cidade em caravana”.

RECAÍDA

A torcida do Flamengo cantava “festa na favela”, ao ritmo de axé. Em 2019, a diretoria a orientou, por suas redes sociais, a evitar o uso da palavra “favela” por uma suposta relação com atos de violência.