
RIVAL SEMPRE MAMOU NAS TETAS DO ESTADO
No final do século XIX, os remadores
rubro-negros, às vezes, usavam o píer da presidência da República para lançar
os barcos na Baía de Guanabara, tirando proveito da vizinhança entre o Palácio
do Catete e o casarão que servia de sede\garagem do clube, cujos atletas eram todos
estudantes ricos, brancos, os legítimos filhos da burguesia.
Desde então, parece que o Flamengo
se considera no direito de obter benefícios públicos.
De Pedro Ernesto a Witzel e
Claudio Castro, são muitos os favorecimentos. Ao usurpar o Maracanã, o Flamengo
- junto ao Fluminense – ignora o disparate que é discriminar a imensa torcida
do Vasco em um estádio público, que custou R$ 1,2 bilhão – sem contar os sacos de dinheiro utilizados desde 1950 em manutenção e incontáveis reformas, de
todos os contribuintes cariocas, inclusive muitos milhões de vascaínos, vivos e
mortos.
Em 1921, segundo o Correio
da Manhã, deputados
tramaram para que o Flamengo recebesse do Governo federal um empréstimo para a
construção do seu estádio. “O stadium da Praia Vermelha, com piscina
monumental, será muito em breve uma esplêndida realidade”. O jornal considerava
a iniciativa de interesse nacional: “Os poderes públicos o desoneraria (...),
permitindo-lhe iniciar entre nós a cultura física”. Deu errado porque o local é
área militar e o Ministério da Guerra detonou a investida.
O Flamengo – que, antes, sonhava com a Praia
Vermelha - em 1926 ocupou 34.120m quadrados na Gávea, às margens da Lagoa
Rodrigo de Freitas. Uma invasão. Na época, havia nas proximidades uma favela,
aniquilada por incêndio criminoso nos anos 60, durante a gestão do flamenguista
e governador da Guanabara, Carlos Lacerda.
Hoje,
as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas são uma das localidades mais valorizadas
pelo mercado imobiliário no Brasil.
Neste
mesmo ano de 1926, a prefeitura do Distrito Federal também doou ao Botafogo o
terreno para que este construísse a sua sede – o palacete de General Severiano.
O Vasco não teve boa vida: precisou comprar um terreno em São Cristóvão, zona norte,
para levantar o seu monumental estádio.
No
ano seguinte, é negado
ao Vasco pelo presidente da República, Washington Luís, a importação de cimento
belga, sabendo que o país não dispunha de quantidade para uma obra da
envergadura de São Januário. Pouco antes, havia liberado o produto para a
construção do Jockey Club Brasileiro - espaço da elite (Fla-Flu) -, no Jardim
Botânico.
O
último jogo do Flamengo na Rua Paysandu foi em 1932. Depois, peregrinou em
Laranjeiras e General Severiano. Enquanto isso, o interventor Pedro Ernesto,
prefeito do Distrito Federal (1931-1936) nomeado por Getúlio Vargas, oferecia
ao rival inúmeras vantagens: em 1933, o aforamento do terreno invadido em 1926,
e a liberação de empréstimos para a construção, no local, do Estádio da Gávea –
inaugurado em 1938 (Fla 0x2 Vasco).
No Natal de 1935, Pedro Ernesto articula para
que o Flu repasse ao Fla o terreno próximo ao Morro da Viúva, para a construção
de um ginásio. Grato por tanta gentileza, em troca, o presidente Bastos Padilha
concedeu a Getúlio o título de “presidente do honra” do Flamengo.
O terreno fora doado em 1916 pela Marinha de
Guerra ao Fluminense, e lá deveria ter sido construída a sede náutica do
fidalgo.
Desde
sempre o Flamengo forja a associação de si ao conceito de “nação” – fundado a
17 de novembro, os pioneiros acharam por bem mudar para 15 de novembro,
coincidindo, assim, com a Proclamação de República.
A
partir de meados da década de 1930, ações de marketing partiam do Jornal dos Sports: por civismo, antes de
um Fla-Flu, em Laranjeiras, a torcida cantou o hino nacional, fazendo valer
recente lei do Estado Novo. Nas páginas do periódico, era comum a relação entre
Brasil e Flamengo.
Em
1936, o clube promove um concurso de fotografia, chamado “Uma vez Flamengo,
sempre... tudo pelo Brasil”, com patrocínio do Jornal dos Sports. Roberto Marinho concorre, mas o clique vencedor
é o de Hans Peter Lange: dois operários na construção do Estádio da Gávea – o
“novo” perfil para as novas gerações de flamenguistas. Em 1937, a vencedora foi
a de um torcedor com as bandeiras do Brasil e do Flamengo às mãos.
Getúlio
Vargas e Eurico Dutra colaboraram com o Flamengo. Vargas concedeu um generoso
empréstimo, a juros baixos. Dutra, ao assumir a presidência da República, não
custou a doar ao clube de coração – do qual era associado - um valioso terreno
no Centro da cidade. Também foi parcial na comemoração do 1º de maio no
primeiro ano de governo: em um amistoso Flamengo x São Paulo, disputado em São
Januário.
No
terreno próximo ao Morro da Viúva foi construída a nova sede social do Flamengo
nos quatro primeiros andares de um prédio enorme. O rival teve o apoio de Dutra
para a liberação de um empréstimo de Cr$ 40 milhões da Companhia SulAmérica de
Seguros. Em 1953, foi inaugurado. Vinte andares, 148 apartamentos para alugar
na zona sul – nada mal em se tratando de um clube esportivo. Em 2017, o vendeu
a uma imobiliária por R$ 112 milhões.
O
negócio foi possível graças à intervenção do prefeito Marcelo Crivella, ao aprovar
lei permitindo que o imóvel se tornasse um “empreendimento comercial”. O queridinho
do sistema ainda mantém 44 apartamentos por lá.
Das
poucas derrotas do Flamengo na queda de braço com governantes – em qualquer
esfera – foi na década de 1950, quando os deputados do Distrito Federal e,
depois, da Guanabara - e não os clubes! - decidiam sobre os preços dos
ingressos no Maracanã. O impasse atravessou as gestões de Negrão de Lima (PSD)
e Carlos Lacerda (UDN) na prefeitura, ao ponto de o presidente Juscelino
Kubitschek (PSD) sugerir a federalização.
PONTA DIREITA
Em 1945, com a queda
do Estado Novo e a redemocratização do Brasil, flamenguistas ilustres – Ary
Barroso, Bastos Padilha, Zé Lins do Rego –, se filiam à UDN – o grande partido
conservador da direita. Ary Barroso foi correligionário do golpista Carlos
Lacerda. No entanto, muitos associados do Flamengo ficaram com Getúlio Vargas
(PTB) devido ao seu apoio a Eurico Dutra, benemérito do clube, para a
presidência da República.
O jornalista Sebastião
Nery, no livro Folclore Político,
relatou:
“Na crise que corroía o governo de Getúlio Vargas e que
antecedeu ao suicídio (1954), o flamenguista Carlos Lacerda solicitou ao
general Canrobert, torcedor do São Cristóvão, que depusesse Vargas. Canrobert:
“Não ajudo a botar tanque na rua (...) só se vier para o Exército tudo
quanto é moção. Todo mundo pedindo, até o Clube de Regatas do Flamengo”.
Lacerda levou ao pé da letra e, para surpresa do general, obteve do seu clube de
coração uma moção solicitando a renúncia do presidente”...
Em
1959, o flamenguista Carlinhos Niemeyer, dono do ótimo Canal 100, é contratado
pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) – de caráter privado -
para exibir curtas-metragens de futebol antes dos filmes em todos os cinemas do
Rio, em 35mm, em qualquer circunstância pró-Flamengo e anti-Vasco. O IPES era
bancado pelo Estados Unidos para combater o “comunismo”. Agiu em favor do golpe
de 1964: conspirou, pesquisou, fez documentários, filmes publicitários etc.
contra o ex-presidente João Goulart.
Nos
anos 70, a torcida do Flamengo adotaria uma versão da música de campanha do
Governo federal, em tempos de ditadura militar: “Ó, meu Brasil\ eu gosto de
você\ quero cantar ao mundo inteiro\ a alegria de ser brasileiro”... O
presidente Emilio Garrastazu Médici, como Dutra, foi sócio do rival.
Os
cartolas de hoje, como o presidente Rodolfo Landim e o vice de futebol Marcos
Brás – ambos envolvidos em questões policiais e com a Justiça - apreciavam a presença do amigo deles e
ex-presidente da República, Jair Bolsonaro (FOTO), nos jogos.
O SISTEMA
O
poder do Flamengo se manifesta nas autarquias. Como em 1979, quando atropelou
uma determinação do Conselho Nacional de Desportos (CND) para se sagrar
tricampeão carioca em dois anos.
Milagre? Claro não...
Embora a Guanabara e o Rio de Janeiro tenham se unido em
1975, a Federação Carioca de Futebol (FCF) e a Federação Fluminense de Futebol
(FFF) continuaram separadas até 1978. Em 1976 e 1977, três do interior
(Americano, Goytacaz e Volta Redonda) jogaram o Campeonato Carioca, convidados,
e um acordo foi costurado para que aumentasse para seis em 78. Isto não caiu
bem e gerou a exclusão de Americano, Goytacaz e Volta Redonda do campeonato de
1978 (no segundo semestre). A FFF apelou à Justiça e paralisou a competição. A
pendenga acabou com a intervenção do CND, que fundiu a FCF e a FFF, fazendo
surgir a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), obrigada – em
1978! – a organizar a competição unificada: o I Campeonato do Estado do Rio de
Janeiro, com fase final em fevereiro de 1979: seis da capital e quatro do
interior. Esta fase, porém, iria se transformar em campeonato à parte
(“Especial”), já que o Flamengo propôs à FERJ – ignorando o CND - que o
campeonato unificado ficasse para 1979. Motivo: o risco de ver o título da fase
classificatória de 78 – 1x0 sobre o Vasco, gol de Rondinelli – varrido da
história. O impasse acaba no Conselho Arbitral de 23 de janeiro de 1979, no
qual o Flamengo perde por 9x8, não aceita, provoca no grito a suspensão do
mesmo e a marcação de nova reunião para o dia seguinte, quando - de forma
esquisita - convence o Madureira a mudar o seu voto, ganha por 9x8 e transforma
a ex-fase final de 1978 num campeonato à parte em 1979.
O
Flamengo voltaria a ser favorecido pelo Governo federal em 1984. Com a
publicidade, enfim, liberada pelo CND, o Vasco fechou com a “Bandeirante
Seguros” um contrato curto, pontual, enquanto o rival passou a ser patrocinado
pela “Petrobras” (LUBRAX). Companhia estatal – por longos 25 anos (até 2009)
inundando-o com dinheiro público. O seu. O dos vascaínos. O de todos. Em 2013,
outra estatal – a Caixa Econômica Federal – passou a patrociná-lo, até 2019. A
atual mamata pública vem do Banco de Brasília.
Ex-executivo do BNDES, o então
presidente do Flamengo, Bandeira de Mello, fechou com um patrocinador: a
Peugeot. Eis que o BNDES liberou financiamento de R$ 154 milhões à Peugeot
Citroën do Brasil. Em 2015, com o fim deste contrato, a Jeep (Fiat Chrysler
Automobiles) passou a patrocinar o rival. Logo, foi contemplada com empréstimo
de R$ 3 bilhões. Coincidência. Inclusive, porque Bandeira não era do setor
comercial e nem sequer participou das negociações.
Na
Justiça e nas delegacias o Flamengo também é poderoso. Há incontáveis exemplos –
como esses:
Em
1986, o Caso das Papeletas Amarelas - o presidente do clube, George Helal,
admitiu que Cz$ 300 mil do clube foram parar na conta do diretor de arbitragem
da FERJ, Paulo Antunes. Segundo a revista Placar tratava-se de suborno para
ser favorecido contra os times “pequenos”. O Ministério Público-RJ e a policia
investigaram (!), sem conclusão de que houve crime. O caixa-dois envolvia Cz$ 4
milhões e houve desdobramentos jurídicos.
Em
2019, o Assassinato do Ninho do Urubu - incêndio em containers usados como dormitório resultou na morte de dez jovens das
categorias de base. Ninguém foi preso, e nem sequer o clube –
os cartolas estavam cientes do risco - foi punido.
O caso tramita a
passos de tartaruga na 36ª Vara Criminal.
O
“ninho” se chama Centro de Treinamento George Helal.