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17 de dezembro de 2025


ORRA, MEU... O DIA EM QUE SERGINHO NITERÓI ENFURECEU O PACAEMBU

Alguns da Força Jovem carregam o status de herói pela ousadia, e este é o caso de Serginho Niterói. No Corinthians 0x0 (4x3, nos pênaltis) Vasco, em 1988, com o Pacaembu superlotado, antes de a bola rolar uma bandeira da Gaviões da Fiel foi fincada no centro do gramado, Serginho pulou o alambrado e atravessou meio campo até chegar até ela, a retirou do chão e voltou segurando-a, na velocidade máxima. Uma ação tão inesperada que custaram a entender. No rabo do olho notou na cola policiais, seguranças, gandulas e corintianos. Ouvia gritos, latidos, apitos – pareciam estar bem irritados – e, ao iniciar a escalada para o outro lado, foi agarrado. 

“Viajei no ônibus número um, cercado de lendas: Mula Manca, os Metralha, André, Jorge, Pança, Rogério Manteiga, Marcelo He-Man, Roberto Monteiro, Marcondes, Arlindo, Girafa, Japão, Assis Negão, Fusca, Foca...”, comenta Serginho Niterói, que viajava pela primeira vez. Uma aventura digna de filme de ação: “Os caras fazendo a festa, cinquenta mil pessoas, de repente pulou um da Gaviões com a bandeira e ficou tremulando, fincou ela, voltou correndo para a torcida e os caras vibrando. Encontrei o Metralha e o Japão, disse a eles que iria pegar e nem me deram confiança”.

Hoje taxista em Niterói, Serginho tinha 19 anos, vestia a camisa da Força Jovem (ao invadir ela ficou dentro da cueca), bermuda preta, três cordões de prata (estava na moda) e uma touca. No “tobogã” havia três mil vascaínos, mas a caravana da Força Jovem contava com dois ônibus. “Joguei a bandeira pra torcida e fui pular de volta, só que tinham seis PMs me esperando”. Acabou sendo conduzido à delegacia do Pacaembu, atrás do gol do lado oposto ao tobogã. “A torcida me hostilizando, que eu ia morrer, que tinha desonrado o Timão, os policiais falando que iam juntar a gente, iam me deixar sozinho e eu, doidão, dizia pelo amor de Deus me levem daqui”.

Instalado numa cela minúscula, o pior estava por vir: “Surgiu um cara entrando na porrada, ria, encostaram ele na parede, o cara tomando cassetete nas costelas e mesmo assim olhou pra mim e falou: Vou te matar! Aí jogaram ele na minha cela, simplesmente era um grande da Gaviões que tinha ficado cego de um olho em São Januário: Carioca FDP, eu vou comer seus olhos!”. Dois policiais conseguiram separar a briga. Dez minutos depois Rogério Alves, dinossauro da Força Jovem e advogado do Vasco, foi salvar Serginho Niterói a mando de Eurico Miranda.

“O cara ficou esbravejando e fui embora com o advogado, ele de terno e eu de bermuda e sem camisa, por dentro do gramado até a Força Jovem, de ponta a ponta. Fui reconhecido : ‘Ê-ê-ê-ê, está chegando a hora\O carioca vai morrer’. Pensei que eles fossem pular, dar ruim... Na frente da Força Jovem eu tirei a camisa da cueca, a sacudi, pulei o alambrado de volta e nego começou a cantar: Força Jovem-ê-ê-ê-ê-ê\É a Força Jovem, ê-ê-ê\Dá porrada na Jovem e na Fiel, Força Jovem é cruel-el-el”.

Foi o presidente Ely Mendes quem apelou a Eurico: “Coitado, era coroa, né? Meu filho você é maluco, blá-blá-blá, pode pedir o que quiser no bar”, diverte-se Serginho Niterói. O gramado, por sorte, não foi invadido, lembra Japão: “Os caras nos apedrejavam daquele terreno baldio, tinha gente caindo, e de repente a PM jogou gás de pimenta! Demos sorte. A partir dali passaram a nos respeitar mais ainda”.

A Força Jovem – com palmeirenses infiltrados – já tinha botado a Gaviões da Fiel para correr na Praça Roberto Gomes Pedrosa, em frente ao Pacaembu. “Muita gente de camisa preta, nós éramos uns 150,  de repente um nosso foi pra dentro, na bilheteria, saímos pegando geral de porrada, aí chegou a polícia e nos botou dentro do estádio. Com dois ônibus brincamos legal”, se orgulha Pança.

6 de fevereiro de 2024



PM DE CASTRO PRENDE 58 VASCAÍNOS E DOIS FLAMENGUISTAS

Como esperado, houve confrontos de torcedores em vários pontos do Rio de Janeiro. Um vascaíno solitário, não pertencente a torcidas organizadas, foi covardemente linchado – há uma filmagem da ação -, mas a PM do governador flamenguista Claudio Castro (ainda) não se manifestou. No clássico deste domingo (6\2), ela mostrou para onde aponta a alça de mira: prendeu 58 vascaínos e dois rubro-negros.

A maioria envolvida em briga na Praça do Barreto e vizinhança, em Niterói, com 43 vascaínos sendo conduzidos até a 73ª DP (Neves). Irão passar o Carnaval no Complexo Penitenciário de Bangu. 

Já os flamenguistas, que também ostentavam paus e pedras, devia ser gente de bem, pois nenhum foi capturado pelos soldados do 12º e do 7º Batalhões.

Mais oito vascaínos foram detidos em Bonsucesso – um, menor de idade –, três no Centro de Niterói e, enfim, quatro residentes do Morro do Tuiuti, que estavam próximos a São Januário. Todos portando material que poderia ser usado em caso de briga.

Sobre os flamenguistas, um diretor da Torcida Jovem Fla portava um revólver e outro, cheio de más intenções, estava próximo à estação de trem de Piedade. 

3 de fevereiro de 2024

PM DE CASTRO ARMA CILADA PARA OS VASCAÍNOS

A Polícia Militar do flamenguista e governador Claudio Castro, outra vez, tramou para prejudicar a torcida do Vasco. No Clássico dos Milhões deste domingo (4\2), no Maracanã, além de proibir a concentração – especialmente de componentes da Força Jovem – em frente a São Januário, para juntos seguirem até o Maracanã (como sempre), o violentíssimo BEPE não irá fazer a escolta da principal torcida organizada vascaína e da cidade. E nem da Jovem do Flamengo e da Raça Rubro-Negra.

No último Vasco x Flamengo, um torcedor morreu de tiro e outros foram baleados. No jogo de maior rivalidade da cidade, graças à PM de Castro, o risco de graves distúrbios é mais alto do que nunca.

 A Associação Nacional das Torcidas Organizadas (ANATORG) lamentou em nota.

28 de novembro de 2023


MINHA PRIMEIRA VIAGEM COM A FORÇA


Paulo Murilo Valporto

O Corinthians 2x2 Vasco, dia 27 de janeiro de 1985, estreia no Brasileirão daquele ano, foi o primeiro jogo que vi no Morumbi e, também, minha primeira excursão com torcida organizada. Aos 16 anos, precisei da autorização do meu pai e isso foi resolvido apesar da falta de bom senso do Beto Metralha, que, lá em casa, se apresentou de forma peculiar: "Boa noite, eu sou o famoso Irmão Metralha da Força Jovem. Não se preocupe, o seu filho estará seguro".

... O contrário do que tínhamos combinado.

Apesar do susto, ouvi meu pai dizer: "Faça o que manda sua consciência".

Eram quatro ônibus, dois da Força Jovem, um da TOV e outro das demais torcidas. Saída: meia noite da Avenida Rio Branco.  

Chegamos muito cedo, joguei bola em uma praça no Centro deserto de São Paulo com os locais antes de seguirmos para o Morumbi.

Aí começou o drama.

Nós, imprensados na parte de baixo de uma pequena rampa, enquanto uma multidão de componentes da Gaviões da Fiel impedia a passagem, fazendo ameaças e falando uma espécie de dialeto paulistano.

Na Força Jovem a maioria era adolescente como eu. Os corintianos não, eram adultos. 

Os Metralhas - Beto e Armindo, irmãos gêmeos - quando iam para a direita, eu ia atrás; quando avançavam, eu partia para dentro; ao recuarem eu saía correndo - eis a minha tática nos conflitos.

Mas nem dava para sair do lugar.

A paz estava por um fio, a torcida imprensada: tragédia à vista. 

Foi então que a tia Dulce Rosalina, da Renovascão,  surgiu, avançou e tomou a vanguarda. Sozinha, no espaço vazio entre as torcidas rivais. Teriam de passar sobre o cadáver dela - um gesto heroico. 

Por sorte - não existia telefone celular e nem internet - do outro lado apareceu a Tia Elisa - torcedora símbolo do Corinthians. As queridas tias se abraçaram. Pediram calma com as mãos  e todos aplaudiram.

Eu bati palmas, sem dúvida.

Considerando que havia, no máximo, uns cinco PMs na contenção, demos sorte.

Os corintianos - e não a polícia - abriram um pequeno espaço para que chegássemos na arquibancada. A proximidade era tanta que tentaram roubar uma baqueta, mas não conseguiram. 

Sobre o jogo, lembro que o Vasco foi melhor, mas só empatou no finalzinho - gols de Cláudio Adão. Em ação estavam os meus três ídolos na época: Roberto Dinamite, Geovani e Mauricinho. 

Na volta não teve briga e nem quebraram com pedradas os vidros dos nossos ônibus, como em geral acontecia. 

Enfim, uma viagem agradável.  

27 de novembro de 2023

 

VASCO x CORINTHIANS 

Um dos maiores clássicos do futebol brasileiro e de intensa rivalidade, dentro e fora de campo. Veja como foi a cobertura do jornal O MEU VASCÃO da excursão da Força Jovem para Corinthians 0x0 Vasco, em junho de 2009, pela Copa do Brasil.     


Covardia da Fiel acaba em tragédia                           

          

Paulo Murilo Valporto

Bombas caseiras, granada, espingarda e pedras. Foi com este arsenal que a torcida organizada Gaviões da Fiel, do Corinthians, recepcionou a caravana de vascaínos que viajou até a capital paulista, no dia 3 de junho, para assistir ao jogo entre os dois clubes, no Pacaembu, pela Copa do Brasil. Os primeiros ônibus foram cercados na Marginal Tietê por uma multidão furiosa, quase todos com barras de ferro na mão. Os componentes da Força Jovem do Vasco não se intimidaram e na mesma hora partiram para o confronto, que durou 15 minutos. O resultado foi a morte do corintiano Clayton Ferreira de Souza, de 27 anos, e oito hospitalizados (um deles em estado grave). Três vascaínos foram atendidos no ambulatório do Pacaembu e liberados em seguida.

O trágico atentado contra a torcida do Vasco foi tramado pela “Gaviões da Rua São Jorge”, grupo conhecido pela violência. Às 21h20, aproveitaram um engarrafamento para atacar dois ônibus da Força Jovem, sem saber que outros 13 estavam encobertos por caminhões que disputavam espaço no trânsito pesado. Tudo começou quando um ônibus lotado de corintianos, guiado por cinco carros e duas motos, fechou o primeiro ônibus da caravana, com apoio de um grupo de atiradores de pedra que já esperava numa pequena colina, atrás da Ponte das Bandeiras, em Santana, Zona Norte de São Paulo.

Alertados sobre o que acontecia mais à frente, componentes da Força Jovem passaram a descer dos ônibus e a correr em direção aos agressores. Estes atiravam barras de ferro contra os vascaínos, que as recuperavam para continuar a perseguição. Em alguns minutos, eram centenas. Presos na sua própria arapuca, os corintianos entraram em pânico e abandonaram a briga, cada um se esforçando para salvar a própria pele. Muitos invadiram o Clube Esperia para se esconder. Outros pularam muros de casas da região. Até que a polícia controlou a situação: os visitantes retornaram para os ônibus sob cacetadas e gás de pimenta, e 32 torcedores do clube paulista foram conduzidos para a 13ªDP (Casa Verde).

A briga foi motivada pela covardia da torcida rival e pela falha no esquema de policiamento – da Via Dutra até a Marginal Tietê, a caravana recebeu a escolta de apenas oito motociclistas da Polícia Militar. Durante o conflito, dois carros foram depredados e uma moto, incendiada – eram veículos utilizados no atentado promovido pela Gaviões da Fiel. Teve pedra e barra de ferro voando para todo lado. Horas depois, um ônibus vazio da torcida do Vasco estacionado na Rua Paulo Fassalacqua, no Pacaembu, foi incendiado por um marginal que, segundo testemunhas, passou de moto e atirou dentro dele um coquetel molotov. Era exatamente o que conduziria o repórter do jornal O MEU VASCÃO de volta ao Rio de Janeiro.

O promotor público Paulo Castilho, conhecido por combater a violência nos estádios de São Paulo, tem certeza de que os vascaínos foram emboscados.

– Um torcedor do Corinthians morreu ano passado no Rio e eles queriam vingança – revelou.

O subcomandante do 2º Batalhão de Choque da PM, major José Balestiano Filho, também não tem dúvidas de que a briga foi iniciada pelos corintianos, mas não acredita que tenha sido premeditada, apesar dos atiradores de pedra que já estavam na colina esperando a caravana. 

Dezenove dos 32 corintianos foram autuados por formação de quadrilha, rixa qualificada e destruição do patrimônio – cinco já tinham passagem pela polícia por crimes variados e um era foragido da Lei. Eles continuam presos no Centro de Detenção Provisória (CDP), aguardando julgamento. O caso vem sendo conduzido pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de intolerância (Cecradi). No Pacaembu, durante o segundo tempo da partida, dois dirigentes da Força Jovem – Jackson e Léo – procuraram a polícia para reclamar do ônibus incendiado no segundo atentado e acabaram presos, devido ao tumulto na Marginal Tietê. Passaram a noite na 13ª DP e foram embora na manhã seguinte por falta de provas sobre a participação deles na briga.  

No ônibus da Gaviões da Fiel e nos carros que faziam a escolta foram encontrados barras de ferro, bombas de fabricação caseira, uma granada e uma faca. Pelo menos dois tiros foram desferidos com uma espingarda calibre 12 contra um ônibus da torcida do Vasco. Abriu buracos na lataria, mas, por sorte, ninguém se feriu.

Os vascaínos que participaram da caravana e que se consideram vítimas da barbárie ou de maus tratos – só conseguiram entrar o Pacaembu a partir da metade do segundo tempo – têm o direito de impetrar na Justiça paulista uma ação por danos morais e materiais contra a CBF, o Corinthians e o Estado de São Paulo, que, de acordo com o Estatuto do Torcedor, eram responsáveis pela segurança. O ganho de causa é quase garantido. Mas para isto é preciso ter o comprovante do ingresso, da passagem, fotos ou filmagens da excursão e testemunhas.

O COMEÇO – O horário previsto de saída para São Paulo era 7h, mas somente às 13h30 a caravana deixou São Januário rumo à capital paulista. O atraso foi causado pela expectativa que os torcedores tinham de que a diretoria do Vasco colaborasse com o aluguel de dez ônibus.

– Mas isso não aconteceu e a Força Jovem gastou quase R$40 mil por esta caravana. Sacamos o dinheiro que era guardado para fazermos o novo bandeirão até final deste ano – afirmou Luiz Cláudio do Espírito Santo, o Claudinho, presidente da torcida organizada.

Às 9h, o largo em frente à entrada social de clube fervilhava com a presença de cerca de 900 torcedores, que matavam o tempo comendo tira-gostos, salgadinhos e biscoitos no Bar Calhau e nos outros botecos, vizinhos ao ponto final da linha 473 (São Januário – Lido). Teve vascaíno que preferiu esperar na Barreira. Tudo naturalmente regado à cerveja. Uma hora depois, começou a chover fino e surgiu o primeiro dos 15 Ônibus alugados pela Força Jovem para a excursão. Associados da torcida em dia com a mensalidades pagaram R$40. Os demais, R$50, pela passagem de ida e volta e a entrada no estádio.     

Em princípio, Claudinho pretendia alugar dez ônibus, mas fechou com mais cinco para cobrir a demanda. Um deles foi ocupado quase todo pela Guerreiros do Almirante. A Ira Jovem, por sua vez, teve problemas com o ônibus que alugou – e que partiria de Irajá – e seus componentes também se uniram à Força Jovem. Passava do meio-dia quando, aparentemente, tinha chegado a hora de pegar a estrada. Todos ocuparam os seus lugares. Crianças e clandestinos foram convidados a se retirar. O ambiente era de confiança na vitória do Vasco, que classificaria o time para a decisão da Copa do Brasil.

– No jogo de ida, semana passada, alguns ônibus do Corinthians tiveram os vidros quebrados na Quinta da Boavista – disse Valter Luís, desconfiado que a recepção em São Paulo poderia não ser das melhores.

O ônibus no qual o repórter de O MEU VASCÃO viajou – número seis – tinha componentes da 3ª Família (Inhaúma), da 6ª Família (Leopoldina) e da 14ª Família (Ilha do Governador). Pacotes de cerveja em lata entravam sem parar, além do gelo que abastecia um isopor administrado democraticamente.

– Ninguém mais sai do ônibus – exigia Tiago, representante da diretoria no coletivo, distribuindo em seguida os ingressos de entrada no Pacaembu.   

A carroceria balançava porque as pessoas pulavam com entusiasmo no corredor. Pela janela, era possível escutar o barulho intenso que vinha dos outros ônibus. Quando o motorista Maurício Lima colocou a chave na ignição e o velho motor roncou, a euforia tomou conta de todos. Depois, fez questão de se benzer. Sabia que aquela seria uma jornada diferente. Pipocos de morteiro anunciaram que tinha chegado a hora de partir.

– Pode ficar bolado. Pode ficar bolado. 14ª Família é porrada para todo lado!!! – festejavam os torcedores.

NA BRASIL – A caravana seguia acompanhada de alguns carros e um deles bateu de frente na Avenida Brasil. Os ônibus, então, pararam logo depois que começarem a andar. Torcedores começaram a passear, demonstrando agitação. Um deles foi expulso da excursão por um policial torcedor por mau comportamento e, desolado, teve de ficar na cidade. Bastou seguir viagem novamente para que acontecesse uma outra paralisação, dessa vez causada pela polícia, que teve a atenção despertada por componentes da Força Jovem que insistiam em surfar no teto, se sentavam e se penduravam nas janela. Tudo em ritmo de festa. Saranth, de 18 anos, morador de Cordovil, fazia a sua primeira viagem e se divertia.

Foi quando Maurício Lima, o motorista, se dirigiu aos torcedores e fez um apelo para que se comportassem como turistas numa excursão: “Cabeça para dentro para a viagem ser tranquila. E, por favor, nada de ficar no teto”...

A PM, por sua vez, ameaçou mandar os ônibus de volta caso as cenas se repetissem.

– Pô Van Van, bota a cabeça para dentro!!! – exigiu Tiago, pois o companheiro de torcida apreciava o visual pelo teto solar.

– É a Força! É a Força! – era Tindo, surpreendendo os pedestres.

BATISMO – Quando o ônibus chegou na Dutra, os veteranos começaram a procurar torcedores de primeira viagem para participarem do ritual de batismo. Sete deles foram identificados e tiveram de passar por um corredor polonês de mão dupla, antes de serem trancados no banheiro, onde permaneceram durante um bom tempo cantando músicas de incentivo da Força Jovem. Saranth estava preocupado, mas suportava sem reclamar os golpes nas costas de que era vítima. Assustado, Maurício Lima, o motorista, olhava pelo retrovisor na tentativa de entender o que acontecia.

Ele dirigia devagar, o que gerou críticas dos passageiros.

– Vamos lá, piloto, até o ônibus do sacolão nos ultrapassou – disparou Ganso, se referindo a um dos coletivos que fazia parte da caravana, e que, pelo estilo rústico e por não oferecer o menor conforto mais parecia o 473.

Àquela altura da viagem, a maioria sentia fome – poucos almoçaram antes de pegar a estrada – e o batizado continuou.

– Yan, Yan, Yan, Yan... – gritavam os veteranos para um dos batizados, cujo nome não esconde a origem vascaína.

Era como se estivessem na arquibancada saudando o ex-jogador do Vasco, mas, na verdade, esperavam que ele saísse em disparada pelo corredor.

Yan foi guerreiro e não reclamou dos golpes. Até que o extintor de incêndio desapareceu e um veterano foi acusado pelo sumiço (mais tarde, o objeto apareceu). Moral da história? Na Força Jovem antiguidade não é posto e ele também foi para o corredor polonês, quando, pela primeira vez, os recém batizados tiveram a chance de participar do ritual na condição de algozes e não de vítimas.

O ritual foi intenso, mas durou pouco. Logo os novatos se sentaram em fila no corredor para fazer "ola". O gelo mantinha a cerveja sempre gelada. Saranth sentia-se em casa e Maurício Lima parecia relaxado. Na Serra das Araras, os batizados – com escoriações espalhadas no corpo – tiveram de repetir em voz alta, sem imaginar que seriam testados na prática dali a poucas horas:

– Eu quero agradecer aos meus amigos por terem me deixado no ritmo da luta.

– É Força, é a Força!!!

Vergonhosamente ultrapassado pelo “sacolão”, o ônibus parou num centro de apoio da Nova Dutra, a concessionária que administra a rodovia. Mas ali não tinha o que comer ou beber. A tarde ia ficando para trás quando uma nova parada foi feita, dessa vez numa lanchonete de estrada. Alguns poucos torcedores – talvez rubro-negros infiltrados – deixaram o lugar carregando sacos de biscoito e outros alimentos e não pagaram. Quilômetros à frente, um carro da Polícia Rodoviária interceptou o ônibus e os policiais recolheram com o motorista a chave e os documentos do veículo, só devolvidos meia hora depois, graças a um rateio de dinheiro feito para quitar o prejuízo que o dono da lanchonete supostamente teria sofrido.

Anoiteceu na estrada e a possibilidade de chegar no Pacaembu antes de começar o jogo era cada vez mais remota. Os novatos como Saranth tinham orgulho de fazer parte da Força Jovem. Às 20h15, o ônibus passou pelo último pedágio e soltava tanta fumaça que parecia estar prestes a pegar fogo. Estava frio e ventava. Uma das músicas até parecia coisa de vidente:

– Viemos do Rio só para te bater, Gaviões... cadê você!

Desde a saída de São Januário até a chegada em São Paulo, Claudinho manteve seguidos contatos por rádio com o major Balestiano, responsável da PM pela escolta da caravana, informando sobre a localização dos ônibus. Foi por isto que ao chegar na entrada da capital paulista oito motociclistas já estavam na espera para seguirem juntos com os vascaínos até o Pacaembu.

EMBOSCADA – Fazia 11 graus e o céu estava estrelado quando o ônibus estacionou na Marginal Tietê. Do outro lado da avenida era possível observar a enorme montanha russa do Playcenter. Então uma barra de ferro explodiu na lataria. Depois uma pedra, e mais outra. Na rua, uma multidão vestida de preto – cor da camisa da Gaviões da Fiel – se aproximava perigosamente do ônibus em que o repórter de O MEU VASCÂO viajava. Não houve tempo para mais nada.

– Desce todo mundo! Desce todo mundo!

A disposição da Força Jovem surpreendeu os agressores, que fugiram depois de serem espancados. Os que estavam em carros e motos participando do atentado deixaram os veículos e saíram correndo. O cenário era de destruição, com inúmeros ônibus com os vidros quebrados, carros depredados e uma moto incendiada. Seis torcedores do Corinthians estirados no chão quando a PM resolveu se fazer presente obrigando os vascaínos a retornarem para os ônibus, que tinham ido vários metros para frente. A moto poderia explodir, o que por sorte (ou falta de combustível) não aconteceu.

Durante 15 minutos, uma das vias de entrada mais movimentadas da capital paulista se transformou em campo de batalha. Muitos vascaínos usavam casados escuros, o que dificultada a distinção entre eles e os terroristas. Um grupo de torcedores da 23ª Família (São Paulo) esperava que a caravana passasse na sede da Mancha Verde para buscá-los, mas depois da emboscada isto não foi mais possível.

Leonardo, da 6ª Família, foi um dos primeiros a descer dos ônibus. Atingido na cabeça por uma barra de ferro, foi atendido no ambulatório do Pacaembu e passa bem:

– Eu só queria assistir a um jogo de futebol e olha o que me aconteceu...

PACAEMBU – A polícia escoltou os vascaínos como deveria ter feito a partir da Dutra. Às 21h55, com a bola já rolando, os ônibus estavam num engarrafamento. O trânsito foi interrompido e os carros buzinavam sem parar. Quando finalmente chegou, estava na metade do primeiro tempo. Maurício Lima preferiu ficar vigiando o ônibus. Àquela altura, a confusão na Marginal Tietê não era novidade para a PM, que organizou uma revista lenta e cuidadosa em todos os torcedores na porta do estádio. Nada ilegal foi encontrado. Até os 30min do segundo tempo ainda tinha vascaíno chegando na arquibancada.

A única opção de lanche no Pacaembu era um saco de biscoito a R$4, o mesmo preço do refrigerante. Assim era impossível matar a fome. Um componente da Mancha Verde informou a Steve, da 8ª Família, que os corintianos (chamados de “gambás”) sempre armam tocaias no mesmo lugar contra outras torcidas.

Quando José Pedro, o Mister M, ameaçou colocar sua máscara, foi advertido por um guarda:

– A gente estava te esperando. Se colocar essa máscara, vai preso.

O Vasco buscava o jogo, enquanto o Corinthians fazia cera e explorava contra-ataques. O atacante Élton poderia ter marcado o gol da vitória de cabeça, mas perdeu, para o desespero dos excursionistas. Do nada, surgiu um vendedor de cachorro-quente, que se livrou da carga em segundos, foi embora e não voltou. Durante a partida, surgiu o boato de que vários ônibus da caravana tinham sido incendiados, e que os corintianos planejavam uma nova emboscada. Então, dois diretores da Força Jovem reclamaram e acabaram detidos. Por precaução, a polícia só permitiu que os vascaínos deixassem o estádio às 2h15 da madrugada.

Já fora do Pacaembu, uma boa notícia: apenas um ônibus - e não vários -  tinha sido incendiados. Para o repórter de O MEU VASCÃO, uma novidade lamentável – o ônibus que virou escombro era exatamente o seu, e as línguas de fogo queimaram dois carros que estavam ao lado. Maurício Lima, o motorista, estava transtornado com o cenário:

– É triste. Eu sequer terminei de pagar as prestações do ônibus, que estava sem seguro e agora para o ferro-velho. Era minha única fonte de renda. Vou cobrar de quem? Isso não teria acontecido se a segurança fosse reforçada.       

A VOLTA – A caravana foi acompanhada até a Dutra por motoqueiros da PM. Apesar do cansaço, da fome e do frio que a maioria estava sentindo, todos estavam alertas para uma possível nova emboscada. Quando o ônibus da diretoria pegou a estrada, com o para-brisa estilhaçado, era o momento certo para os guerreiros descansarem, afinal, um novo dia de trabalho estava chegando.     

– Se a gente tivesse entrado no primeiro tempo acho que dava para ganhar – lamentou Ganso.

– Em vez de lançar o Juninho Pernambucano entrou o Edgar – emendou Fet, com cara de sono.

À medida em que o ônibus se aproximava de São Januário pela Avenida Brasil, torcedores desciam para seguir até suas casas. Próximo a Irajá, Batata e outros componentes da Ira Jovem desembarcaram. Antes do café da manhã, o motorista Jorge Santana – que deu uma tremenda sorte – surgiu no corredor para se despedir.

Na hora da confusão, ele entrou em pânico:

– Foi a minha primeira viagem com a torcida do Vasco. Fiquei neutralizado.

– Você se saiu bem – rebateu Claudinho.

Quando a emboscada que terminou em morte foi divulgada pelos noticiários matinais de rádio e televisão, os telefones celulares começaram a tocar. Esposas, namoradas, irmãos, mães, pais, amigos e até um patrão preocupado com o atraso resolveram ligar para saber o que tinha acontecido e se estavam todos bem.

Às 8h30, Ganso recebeu uma ligação. Do outro lado, uma voz tensa. Ele passou tranquilidade: 

– Mas não houve nada... Mataram um cara?!... Que isso! Não foi com a gente.

Às 9h, o ônibus chegou em São Januário. O repórter bebeu café com leite no Bar Calhau e partiu.

Outros fizeram o mesmo.

Depois de 26h, o Vasco estava eliminado da Copa do Brasil.