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2 de março de 2026


FLU NÃO ENGOLE SEU PASSADO RACISTA

No empate deste domingo (1x1), na Arena Maracanã, torcedores do Fluminense Football Club - fundado pelo filho mimado de um diplomata britânico – resolveram debochar dos vascaínos presentes. A pequena torcida do clube da zona sul – segundo pesquisas a 12ª maior do Brasil –, cuja história contém a mancha suja do racismo, levantou esta faixa: “O herói de vocês matou, escravizou e colonizou”. 

Os brancos da elite que lançaram esta provocação, talvez herdeiros de escravocratas, não foram impedidos pela Polícia Militar.

Durante décadas o Fluminense foi chamada de “time de veado” em coro no Maracanã. Hoje, homofobia é crime. É proibido. Vetado. Mas sua torcida – filhos da elite carioca - se julga no direito de ofender os vascaínos.

Clube preconceituoso desde a fundação, em 1902, não por acaso o primeiro jogador titular de cor negra só foi emplacar na segunda parte da década de 1930, com o profissionalismo.

Paulo César Caju quando era criança e jogava no Fluminense pode sentir na pele o racismo do clube, ao ser proibido de ingressar pela portaria social como seus colegas brancos (VIDEO).  

8 de maio de 2024



VASCO x FLA-FLU: QUESTÃO DE BERÇO

A origem dos clubes – na virada entre o século XIX e o século XX - que disputam a licitação do Maracanã (até 2044) explica a posição de cada um: a proposta do ‘Consórcio Maracanã Para Todos’ – do Vasco e da WTorre – é includente, popular; a do ‘Consórcio Fla-Flu’ elitizada, por contemplar os coirmãos da zona sul e só. Os vascaínos, desde 2013 – quando o estádio passou a ser gerido pelos rivais, na época, em parceria com a Odebrecht – são covardemente discriminados.

Querem separar a população em dois grupos.

Um com cidadania plena – os rubro-negros e tricolores - pode frequentar o Maracanã - o palco mais simbólico do futebol. O outro, o da torcida do Vasco – mais popular e muito superior em tamanho à torcida do Fluminense – é condenado a ser visitante em sua própria casa porque os usurpadores não tratam o estádio como bem público.

IDENTIDADES

O Flamengo é fundado a 17 de novembro de 1985. Logo, troca a “fundação oficial” para 15 de novembro, junto ao feriado da Proclamação da República. As cores mudam, em 1896, de azul e ouro – tecidos difíceis de encontrar - para preto e vermelho. O Vasco sempre foi de 21 de agosto de 1898. Na bandeira, o preto representa os mares nunca antes navegados, o fim do mundo e as mortes no caminho. A faixa branca é a rota do navegador, e a cruz a fé do povo português (o Flu imita o Fla: surge, em 1902, cinza e branco, e só depois adota o tricolor).

FUNDAÇÃO

Em 1895 numa reunião de jovens da burguesia – estudavam e se divertiam – no Largo do Machado, nasce o C.R. Flamengo, tendo como garagem um casarão na Praia do Russel, 22 (Praia do Flamengo), área nobre, vizinho ao Palácio do Catete, a residência do presidente da República. Um dos motivos é que, em 1894, o C.R. Botafogo tinha sido fundado e seus remadores cortejavam as moças do bairro Flamengo. Já o Vasco surge em 1898, em um sobrado alugado na Rua da Saúde, 127 (Gamboa), fundado por portugueses e descendentes, alguns donos de pequenos comércios e a grande maioria de assalariados em lojas no Centro, zona norte e subúrbios.

REALIDADES

Remadores do Flamengo viviam da mesada dos pais e, às vezes, usavam o píer da presidência da República para lançar os seus barcos na Baía de Guanabara. Já o primeiro presidente do Vasco renunciou em 1899, levando quase todos os barcos para fundar o C.R. Guanabara, em Botafogo.  

Enquanto nos clubes dos ricos da zona sul não era admissível o convívio com pobres, no Vasco, eles formavam a maioria. A elite também mantinha forte rejeição aos portugueses. Esses clubes faziam questão de se apresentarem como os que “reuniam os filhos das melhores famílias”, e cobravam altas mensalidades. O Vasco, não. Daí os associados terem recusado a transferência da sede para Botafogo, preferindo se reinventar na região portuária. 

VASCO: ORIGEM

Nei Lopes: “O Vasco nasceu no lugar e no momento em que se gestava o melhor da cultura carioca, com sua música, sua dança e sua religiosidade. Morava perto Hilário Jovino, o fundador do rancho carnavalesco, célula-mãe das escolas de samba; os pais de santo João Alabá e Cipriano Abedé, a partir dos quais se estabeleceram no Rio os candomblés da Bahia; Tia Perciliana, mãe de João da Baiana, um dos pais da MPB. (...) a convivência entre europeus e descendentes de africanos naquela região se deu sem maiores conflitos. Vem-nos daí a ideia de que por isso que a Cruz-de-malta pulsou e pulsa no peito de tantos sambistas, e a relação é enorme”.

FLA: ORIGEM

O jornalista João do Rio, em 1916, escreveu a respeito da representatividade social do rival: “Fazer sport há vinte anos ainda era uma extravagância. (...) Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias era um estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

FLU: ORIGEM

O Fluminense inaugura o foot-ball no Rio de Janeiro em 1902, dando ao esporte um perfil elitizado. O fundador e primeiro presidente foi Oscar Cox, filho de diplomata inglês, mas quem forjou a identidade tricolor foi o milionário Arnaldo Guinle, o presidente de 1916 a 1931 e de 1941 a 1943. Também presidiu a CBD de 1916 a 1920 e a AMEA em toda sua existência, entre 1924 e 1933. A Família Guinle lucrava com o Porto de Santos - era a dona do terreno do clube, do vizinho Palácio Guanabara e muito mais.

PIONEIRISMO

A partir dos clubes de remo nascem todos os outros. O pioneiro é o Grupo dos Mareantes, de 1851. A prefeitura do Distrito Federal, em 1905, inaugurou um pavilhão de ferro na Enseada de Botafogo, na recém-construída Avenida Beira-Mar. Apogeu: inglês como o foot-ball e acessível ao povo e à elite.

BOTA-ABAIXO

A multimilionária Família Guinle se beneficiou da Reforma Passos adquirindo terrenos antes ocupados por cortiços e casebres no Centro da cidade, conta Darcy Ribeiro. Revolta popular. Um projeto de cidade perverso era gestado. A nova zona sul recebe as melhorias que beneficiarão moradores dos palacetes de Laranjeiras, Flamengo e Botafogo. À população pobre, restaram os bairros da zona norte e subúrbios. Os clubes náuticos, como o Vasco, são despejados, e suas praias desaparecem aterradas: do Russel, da Ajuda, de Santa Luzia, de Dom Manuel, do Peixe, da Prainha, da Gamboa etc.

CARTOLA

O Vasco é o único dos “grandes” do Rio de Janeiro que já teve um presidente preto: Cândido José de Araújo, o Candinho, em 1904, antes da implantação do futebol, e 16 anos após a Abolição da Escravatura. O Fluminense – e o coirmão, o Flamengo – jamais tiveram. 

UNIDOS PARA SEMPRE

Por não praticarem os mesmos esportes, até 1911 havia sócios de ambos os clubes (Fla-Flu). Em 1902, flamenguistas - inclusive o seu presidente - assinaram a ata de fundação do Fluminense, na Rua Marquês de Abrantes, bairro Flamengo. De 1905 a 1906, tiveram o mesmo presidente: o inglês Francis Henry Walter. O Flu repassou ao Fla o terreno do Morro da Viúva, em 1935. O futebol rubro-negro nasceu na Rua Paysandu, terreno da família Guinle, tricolor. Ou seja, flamenguistas ajudaram a fundar o rival e tricolores criaram o futebol do Flamengo, capitaneados pelo traidor Alberto Borgerth, remador do Fla e player do Flu.

DEMOLIÇÕES

O Flamengo tinha sede e garagem num casarão em área nobre (hoje, Praia do Flamengo, 66) e sempre obteve favores públicos. O Vasco passou sufoco até a inauguração de São Januário, em 1927. A sede pioneira era um barracão na Ilha das Moças, na Gamboa. As primeiras sumiram: Ilha das Moças, aterrada; as do Largo da Imperatriz e Travessa Maia, demolidas na construção do Palácio Monroe. Por fim – com o estádio já de pé - a da Rua Santa Luzia caiu em 1942.

BACANAS

Sobre as condições de mobilidade urbana em 1917, João do Rio explicou: “A gente de Botafogo tem só de se dar com a gente de Botafogo [Laranjeiras\Flamengo] e a gente do subúrbio com a gente do subúrbio. As estações de trem da Central do Brasil têm contexto amplo, constatou Olavo Bilac, em A Notícia: “Cada uma tem o seu teatro, o seu parque, o seu cinematógrafo e o seu club”.

TORCIDA RIVAL: TEORIAS FAKE

A torcida do Flamengo cresceu com a FlaPress, com o profissionalismo em meados da década de 1930, pela visão de marketing do seu presidente Bastos Padilha. Antes, não. Há teorias sobre a origem da popularidade que camuflam o DNA elitizado. Ruy Castro: o rival já nasceu popular e a rivalidade com o Vasco – “time dos portugueses” – no remo a alavancou. Ocorre que o rubro-negro não tinha apelo popular e nem tampouco rivalidade com o Vasco no remo, dada a imensa superioridade dos vascaínos. Outra teoria delirante é da FlaPress, baseada em Mario Filho: os treinos na Rua Paysandu – área nobre - eram franqueados e os players corriam nas ruas... Ora, a torcida era a fina flor da sociedade, segundo A Gazeta de Notícias etc.

RACISMO INTIMIDA

Caso emblemático é o de Carlos Alberto, que em 1914 trocou o América pelo Fluminense (as maiores torcidas): num jogo em Campos Sales, ele passou tanto pó de arroz que ficou quase cinza. Da geral, os rubros o acusaram de fazê-lo para embranquecer a pele. Zombavam: “Pó de arroz! Pó de arroz!”. A acusação alastrou-se como insulto até virar, muito depois, motivo de orgulho dos tricolores, que reagiam chamando os americanos de “pó de mico” e os vascaínos na década seguinte de “pó da pérsia” (vermífugo). Carlos Alberto logo foi mandado embora: justa causa. Mario Filho: “O Fluminense (...) queria ser mais do que os outros, mais chique, mais elegante, mais aristocrático. O pó-de-arroz pegou feito visgo”.

TIME DOS MÉDICOS

Dos onze titulares do Flamengo em 1914, nove estudavam Medicina, um Direito e outro não estudava nada, mas era rico, do contrário não teria sido aceito no Fluminense e nem estaria em meio aos atletas rubro-negros. O futebol refletia a ordem social. Daí ser inconcebível a um pobre, semianalfabeto, competir esportivamente – ou mesmo conviver - com um futuro doutor.

ESPÍRITO DO TEMPO

Em 1916, um artigo na revista Sport retrata o sentimento dos rivais do Vasco, nas primeiras décadas do século XX: “(...) Frequentamos uma academia, temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval, jantamos no Rotisserie, visitamos as conferências literárias, vamos ao Five O’clock; mas quando nós resolvemos a praticar esporte às vezes somos obrigados a jogar com um operário, limador, mecânico, chofer e profissões que absolutamente não estão em relação ao meio onde vivemos. Nesse caso a prática torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão”.

LEI HOUR CONCOURS

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. Na era dourada, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Na impossibilidade de serem campeões de remo, em 1915 Flamengo, Botafogo e Guanabara aprovam, na FBSR, uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos, particularmente o Vasco, tricampeão.

GENTE FINA

No futebol, o Vasco estreou na terceira divisão da LMSA (futura LMDT, LCF e, atualmente, é a FERJ) e só chegou à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou no futebol - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) coirmão Fluminense.


IMAGEM - berço do Fluminense

11 de abril de 2024

         

     
   

FLA-FLU EXISTE PARA ATACAR O VASCO

O neologismo “Fla-Flu” surgiu em 1925 quando os jornais estamparam o caráter da Seleção Carioca dos técnicos Joaquim Guimarães, do Flamengo, e Chico Neto, do Fluminense só com os players dos seus clubes, brancos e endinheirados. Pior: a conquista do Campeonato Brasileiro iria consagrar a tese elitista-racial deles, e influenciar a CBD a só convocar brancos para o Campeonato Sul-Americano, em Buenos Aires. Três vascaínos foram excluídos: os analfabetos Paschoal e Torterolli e o goleiro, de cor preta, Nelson “Chofer” (na pele de um torcedor) – o titular em 1923, quando barrou Marcos, do Flu e Kuntz, do Fla. 

Tudo para que os brasileiros não fossem chamados de “macaquitos”, como dois anos antes.

Sobre Nelson "Chofer", era taxista e fazia ponto no Engenho de Dentro. 

Segundo o jornalista Mario Filho, na viagem de navio da Seleção Brasileira até Montevidéu, para o Campeonato Sul-Americano de 1923, Torterolli e Paschoal procuravam imitar os modos de Fortes, do Fluminense. “Ao fim do jantar chegou uma lavanda. Fortes, de brincadeira, fingiu que ia bebê-la e os dois beberam até não restar uma gota”. 

O fato serviu como argumento para a LMDT, segundo a qual seria conflituosa a relação entre os players “bacanas” e os do Vasco. Logo, a CBD iria a acolher a infâmia da liga carioca.

Não é incomum encontrar tricolores com simpatias pelo Flamengo e vice versa, como dois lados de uma só moeda.

Até 1911, havia sócios de ambos. Em 1902, alguns flamenguistas - inclusive o presidente, Virgílio Leite - assinaram a ata de fundação do Fluminense, na Rua Marquês de Abrantes, bairro Flamengo. Em 1905 e 1906, os coirmãos tiveram o mesmo presidente ao mesmo tempo: o ricaço inglês Francis Henry Walter – ele também defendeu os dois como atleta.

O Flu repassou ao Fla o terreno do Morro da Viúva, em 1935. O futebol rubro-negro nasceu na Rua Paysandu, num terreno da família Guinle, tricolor. Inclusive, lá o Flu disputou seu primeiro jogo. Ou seja, flamenguistas ajudaram a fundar o coirmão e tricolores criaram o futebol do Flamengo, capitaneados por Alberto Borgerth, remador do Fla e player do Flu.

O campo arrendado em 1915 pelo Flamengo, na Rua Paysandu, era vizinho ao estádio da Rua Guanabara (Laranjeiras), sendo o primeiro jogo, naturalmente, o confronto entre eles, com seus players e torcedores brancos.

PRECONCEITO

Em 1916, o Vasco estreou na terceira divisão da LMSA e só chegaria à primeira divisão em 1923. Diferentemente do Flamengo, que tinha dado os seus primeiros chutes quatro anos antes, em 1912, na mesma LMSA e diretamente na primeira divisão - graças à interferência do Fluminense, o dono da bola.

Em sua estreia na divisão principal, o Vasco conquistou o título de 1923. 

Alarmados e sem provar que os players do Vasco eram profissionais, Flamengo, Fluminense e outros abandonam a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA) – mais excludente – presidida pelo ricaço Arnaldo Guinle, presidente do Flu, e não convidam... O campeão!

Para filiar-se, além de menos peso nas votações, teria que eliminar doze atletas. Os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco só tinha o remo, assim, voltaria às origens no foot-ball, na companhia de Mangueira, Andarahy e Americano. 

Recusou, é claro, e os Camisas Negras foram bicampeões, em 1924, na liga abandonada pelos covardes.

O regulamento da AMEA, criada por Fla, Flu e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo, e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (soldado, marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.).

Ao se darem conta de que os públicos nos jogos dos Camisas Negras na LMDT, mesmo sem destaque nos jornais, eram superiores, a AMEA, através do Botafogo, convida o Vasco a se filiar, mesmo com o seu time de “analfabetos”, “pretos” e “trabalhadores”. Continuou proibido de jogar no estádio da Rua Moraes e Silva.

Em 1925, o Vasco sofria mandando jogos em Laranjeiras e na Rua Paysandu, pagando 10% da renda. No primeiro, os sócios ficavam atrás de Nelson Chofer ofendendo-o com palavrões racistas e xenófobos. O fidalgo dizia não ter culpa. Na campo do Flamengo, piorou: os flamenguistas, constatou Mario Filho, sentiam mais raiva dos vascaínos. Nova troca, para o Andarahy, mas já era tarde para ser tricampeão.

Os clubes da zona sul não reconheciam o Vasco – da zona portuária, com torcida mais popular – como um “grande” igual a eles. Foi em resposta a este preconceito que os vascaínos se uniram para viabilizar a construção do Estádio de São Januário, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).   

Jogadores e torcedores de Flamengo e Fluminense mantinham relações de amizade, se cruzavam no Restaurante Lamas, na Matriz da Glória, na Rua das Laranjeiras. Um só comportamento. “O Flamengo até poderia ter algum preto no remo ou no basquete, jamais no futebol. Os barcos ficam longe, e nas regatas nem é possível reparar a cor da pele dos remadores. No futebol, não”, explica o flamenguista Mario Filho.

Em 1934, o Flamengo protesta contra guarnição vascaína em uma regata e tem o inesperado apoio do Fluminense, que não pratica o remo, mas é filiado à Federação Brasileira das Sociedades de Remo (FBSR), gestora dos esportes aquáticos. Inconformado com a intromissão, o Vasco abandona a FBSR para fundar a Liga Carioca de Remo (LCR) e, também, rompe com a Liga Carioca de Futebol (LCF) com Bangu e São Cristóvão – na crise de 1924, estes ficaram com os ricos – para fundar, junto ao Botafogo, a Federação Metropolitana de Desportos (FMD), profissional e a única na cidade reconhecida pela CBD.

A aliança entre Flamengo e Fluminense é endossada pelo presidente rubro-negro Bastos Padilha. Após uma partida entre os coirmão, o Fla perdeu e parte da diretoria reclamou que as bolas não eram as oficiais. Exigia que Padilha protestasse, mas ele nada fez, porque defendia que a boa relação com Arnaldo Guinle era fundamental para o “projeto Fla-Flu”. Renunciou. Em dias, os revoltosos se acalmaram e o cartola retomou o posto.

FLAPRESS

Em 1935 e 1936, Flamengo e Fluminense estão na LCF; América, Botafogo e Vasco, na FMD, que tem os jogos de maior apelo. De acordo com Mario Filho e Bastos Padilha, as torcidas de Vasco e América eram as maiores da cidade.

Neste contexto de cisão, os coirmãos tinham claro o valor da imprensa na formação da opinião pública. O jornalismo esportivo na capital da República contava com o Rio Sportivo (1926), o Mundo Sportivo (1931) e o Jornal dos Sports (1931) — copia o italiano La Gazzetta dello Sport e o francês L’Auto, impresso em cor de rosa. Em 1936, o flamenguista Mário Filho o compra, com a ajuda de Roberto Marinho, flamenguista de O Globo – o investidor majoritário -, Arnaldo Guinle, presidente do Flu e Bastos Padilha, presidente do Fla.

Com a FlaPress nos primórdios, o Jornal dos Sports, apoiado pela Rádio Continental, começa a promover o “Duelo de Torcidas” nos Fla-Flus. A divulgação é maciça, inédita, na disputa pelas melhores rendas com o Vasco. No primeiro “duelo”, eles protestaram contra a CBD: os diretores de ambos os clubes se vestiram de branco, demostrando união. O presidente do Fla, Bastos Padilha, recebeu uma placa do amigo e presidente do Flu, Alaor Prata.  

A expressão “Fla-Flu”, enfim, é propagada no “Duelo de Torcidas”.

Nelson Rodrigues: “O Fla-Flu sem esta abreviação mágica existia desde 1911 ou 12. Até que Mário Filho mudou o nome (...) senhoras, que não sabiam nem quem era a bola, compareciam ao jogo, magnetizadas pelo mito”.

Tentavam manter o Vasco em plano secundário.

A FlaPress nas décadas de 1930 e 1940 – como a AMEA, com a réplica da Carta Histórica, de 1924 – tinha por meta afastá-lo das causas populares relacionando-o apenas aos portugueses, enquanto o Flamengo, com o seu DNA racista, passou a ser identificado como o verdadeiro clube popular. O Fluminense, sua antítese: o preferido dos ricos.

Mario Filho escreveu no Jornal dos Sports, em 1940: “Por que não se tenta apagar o ressentimento entre as torcidas de Vasco e Flamengo?”. Iniciou no Torneio Municipal [os times não atuavam em seus próprios estádios]: no Flu x Botafogo e no Flu x São Cristóvão, em São Januário, os vascaínos aplaudiram os adversários do time tricolor. Mas, quando o Vasco foi à Gávea encarar o Flu, os rubro-negros vaiaram os Camisas Negras. “Desde então, os torcedores do Vasco se veem obrigados a vaiar o Flamengo e vice-versa”.

O “duelo de torcidas” foi relançado com a inauguração do Maracanã. Outra vez, em 1951, a FlaPress tenta fazer do Fla-Flu o clássico mais popular, mas é impossível. Badalado a semana inteira, levou menos público do que o Vasco x Fla (1x2) - como quase sempre –, neste jogo, o rival quebraria a escrita de não bater o Expresso da Vitória desde a final de 1944.

Tempos depois, na decisão do Campeonato Carioca de 1974 – Flamengo 0x0 Vasco - o ex-presidente da República, ditador e flamenguista Emílio Garrastazu Medici encontrava-se na tribuna de honra. Já o presidente do Flamengo, Hélio Mauricio, cardíaco, ouvia pelo rádio, na sede do Fluminense, em Laranjeiras, na companhia do presidente tricolor, Jorge Frias, e correu para o Maracanã após o apito final. 

Na semana seguinte, na eleição realizada na Gávea, Hélio Maurício seria reeleito — com o voto de um associado ilustre: Médici.

Em 1986, o flamenguista Marcio Braga ajudou a derrotar o vascaíno Medrado Dias na eleição à presidência da CBF - a vida inteira combateu o Vasco e teve Eurico Miranda como desafeto. Já a sua relação com os cartolas do coirmão (e do Botafogo) sempre foi amistosa. Ele e Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense, foram amigos de infância em Copacabana.

EURICO

Frustrados com o bi vascaíno em 1993 e com a boa relação entre Eurico Miranda e Eduardo Vianna, o presidente da FERJ, os coirmãos cooptam o Botafogo na “Liga Carioca”. Querem o Campeonato Carioca sem vínculo com a FERJ, da qual pretendiam se desfiliar – como em 1924... –, mas recuam dissuadidos pela FIFA. A FlaPress os apoia e abre espaços. Um político, em especial, surfa naquela onda de moralismo barato: o então deputado estadual Sergio Cabral Filho (PMDB).

A “Liga Carioca” é ressuscitada em 1997, como sempre para combater o Vasco, por Kleber Leite (Fla), Álvaro Barcellos (Flu) e José Rolim (Bota), presidida por Francisco Horta (ex-Fla-Flu). Esses cartolas entraram em transe profundo quando Eurico se baseou no regulamento para adiar jogos do Campeonato Carioca, se valendo de que o time vascaíno tinha quatro atletas em Seleções Brasileiras (Germano, Edmundo, Felipe e Pedrinho).

Em 1997 e 1998, os membros da “liga”, por chilique, perderam jogos por W.O.

Passaram anos tentando derrubar Eduardo Vianna, o “Caixa d’Água”, da presidência da FERJ e só conseguiram quando este morreu, em 2006. Rubens Lopes assumiu em 2007. Rubinho – até hoje o presidente – para se eternizar tornou-se um aliado dos herdeiros daqueles racistas da AMEA.

FATALIDADES

No primeiro rebaixamento do Vasco à Série B, em 2008, na última rodada do Brasileirão era preciso ganhar do Vitória e torcer por uma combinação de resultados. No Atlético-PR 5x3 Flamengo, a vitória do rival ajudaria, e um empate lhe daria uma vaga na Libertadores. O primeiro gol paranaense foi em uma cabeçada fortíssima de Toró – cria do Flu – no primeiro pau, sem chance de defesa. Gol-contra! O Fla era presa fácil – talvez, devido à pressão da torcida, que, na véspera, tinha pichado os muros da Gávea com ameaças aos jogadores e a Marcio Braga (“Se ganhar morre”) se o Vasco fosse... ajudado.

Os coirmãos tabelaram em 2013, quando a Portuguesa impediu a queda de Flamengo ou Fluminense à Série B do Brasileirão.  Na última rodada, a Lusa lançou em campo - no final do segundo tempo - Héverton, irregular - caso inédito: nem o atleta, nem o técnico, diretor ou imprensa se deram conta da infração. Nesta última rodada, dois jogadores irregulares é outro absurdo. Para o Ministério Público-SP, funcionários da Lusa foram subornados. Esta perdeu quatro pontos e foi rebaixada no lugar do Fla, que, um dia antes, cometera o mesmo erro escalando André Santos contra o Cruzeiro. Se nada tivesse ocorrido, o rebaixado seria o Flu – já anunciado nos jornais. Dias depois, foram confirmadas as duas escalações irregulares, e os tricolores festejaram na porta do STJD mais uma virada de mesa.

Antes deste jogo com o Cruzeiro, parte da FlaPress anunciou que André Santos não poderia ser escalado. Pois bem: ele foi e, depois, não se viu nada, em qualquer mídia, sobre o tema. O silêncio só iria acabar quando constatou-se que a Portuguesa cometera – um dia depois – igual infração.

Em 2015, o técnico Vanderlei Luxemburgo, do Flamengo, disse em uma entrevista que a federação devia “levar porrada”. É suspenso dois jogos pelo TJD, inclusive de um Fla-Flu. O Fluminense, solidário, se uniu em protesto contra os juízes da FERJ. Veja que esquisito: os jogadores do time mais favorecido (Fla) do Brasil e do dileto coirmão (Flu), lado a lado, com as bocas cobertas por esparadrapos... em nome da moral! O Flamengo, campeão carioca roubado em 2014, ameaçava até não disputar em 2016.

MARACANÃ

Já governador, Sérgio Cabral anunciou, em 2008, que o Maracanã iria ser privatizado após as obras de “reforma” para a Copa de 2014. Flamengo, Fluminense e CBF tramaram a ocupação, com esta anunciando 70% dos jogos da Seleção Brasileira no estádio. Cinco anos depois, em 2013, os concorrentes da licitação para gerir a “Arena Maracanã” por 35 anos eram o Consórcio Maracanã S/A — vencedor de véspera, imediatamente sublocou a gestão aos coirmãos — e o Complexo Esportivo e Cultural do Rio.

O propósito dos coirmãos é sabotar o Vasco, tomando o estádio para si. A primeira exclusão foi em relação à torcida vascaína, que em 2013 deixou de ter prioridade no lado direito da tribuna para uma torcida menor que a sua.                           

A demolição do velho Maracanã foi uma bênção para Flamengo e Fluminense: ganharam uma nova arena de R$ 1,2 bilhão, sem gastar um tostão. Muito lucrativa. Mentira oficial: dava prejuízo antes da privatização.

A desculpa dos rivais para terem recusado a gestão compartilhada com o Vasco é que o gramado seria danificado pelo excesso de jogos. É chocante a discriminação aos vascaínos, tratando-os – com a conivência da FlaPress - sem os mesmos direitos ao patrimônio público. Alegaram que com mais de 70 jogos por temporada a grama seria prejudicada – na cabeça deles, é isso: a graminha tem mais valor que o futuro do Vasco.

Incluindo preliminares e outros eventos, o Maracanã abrigou 160 jogos em 1964; 157 em 1965; 211 em 1970; 114 em 1980. Pelé e Garrincha não reclamavam.

Os coirmãos também se recusam, covardemente, a liberar o Maracanã para jogos do Vasco - só apelando à Justiça, algo recorrente nos últimos anos, e sempre com sucesso. O disparate é tanto que contraria itens do contrato de concessão provisória que os enriquece.

Antes de buscar parceiros para a licitação, o Vasco tentou se acertar com Flamengo e Fluminense. Recusaram, é claro. Em O Globo, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, argumentou que Alexandre Campello, ex-presidente do Vasco, em 2019 – não quis a gestão PROVISÓRIA do estádio – e, assim, ele encerrou o assunto para toda a eternidade.

A soberba de Landim, executivo nas firmas do ladrão Eike Batista, é um traço da elite rubro-negra: 

“Ninguém aqui está privilegiando ninguém. Não estão entregando a ninguém. O Vasco teve chance de se associar ao Flamengo e ao Fluminense, mas no início de todo esse processo preferiu não se juntar”.

NOTA OFICIAL

“O Vasco da Gama se vê obrigado a esclarecer informações dadas pelo presidente do CR Flamengo, Rodolfo Landim: 1. Não é verdade que o Flamengo ofereceu ao Vasco a oportunidade de participar da gestão do Maracanã neste processo licitatório. O dirigente usa o desinteresse de outra gestão, em 2019, em uma outorga precária de seis meses, para concluir que não queremos administrá-lo. Não diz que, a partir do início de 2021, procuramos CR Flamengo e Fluminense FC com o objetivo de participar na gestão, não sendo possível. OS RIVAIS TÊM ACORDO MÚTUO DE EXCLUSIVIDADE NA GESTÃO DO ESTÁDIO PÚBLICO. 2. Ao criarmos o Consórcio Maracanã para Todos, trouxemos dois gigantes da indústria de administração de arenas. A narrativa de que o Vasco “entrou para melar” é tão surreal que não vale comentário. 3. O Vasco aguarda a nova publicação do Edital de Licitação, uma vez que o processo foi paralisado pelo TCE um dia antes do prazo de entrega das propostas. 4A narrativa de que a presença das empresas parceiras do Vasco deixará o futebol em segundo plano é mentira. 5O Vasco é um clube de futebol com 125 anos de história, grande parte construída no Maracanã. O futebol é prioridade. O VASCO REITERA SEU COMPROMISSO DE ABRIR O MARACANÃ A TODOS OS CLUBES E SUAS TORCIDAS, EM CONDIÇÕES IGUAIS. INFELIZMENTE A RECÍPROCA NÃO ESTÁ SENDO VERDADEIRA. O CR Flamengo negou duas vezes em 2022 o direito dos nossos torcedores verem seu time no Maracanã, com justificativas implausíveis. Tivemos nosso pleito acatado por duas instâncias do Judiciário. 6Ao contrário do que faz parecer, o CR Flamengo tem constantemente infringido cláusulas da Permissão Temporária de Uso do Maracanã. Todos devem utilizá-lo sob as mesmas condições. O Fluminense FC pagava R$ 90 mil por jogo. O Vasco, R$ 250 mil, além de não repassarem a receita de bares e restaurantes, quebrando a igualdade de tratamento. Censuraram a exibição de mensagem institucional: "Desde 1898 o legítimo Club do Povo – Respeito Igualdade Inclusão". 7. Ao contrário do que foi declarado, para participar da gestão do Maracanã oferecemos ao Fluminense FC mandar alguns jogos em São Januário. 8O Vasco da Gama reitera sua solicitação de que o certame definitivo aconteça o mais rápido possível, com regras claras e transparentes e tenha como norte o melhor para o Estado do Rio de Janeiro, todos os seus clubes e torcedores, sem influências. Não temos dúvidas de que o Consórcio Maracanã para Todos é o mais bem preparado e que, se o resultado for técnico, será o vencedor. 9. Queremos tranquilizar a imensa torcida vascaína: o Vasco da Gama e a 777 Partners utilizarão todos os mecanismos ao nosso alcance para que nossos interesses sejam preservados”.

10 de abril de 2024

RIVAL SEMPRE MAMOU NAS TETAS DO ESTADO

No final do século XIX, os remadores rubro-negros, às vezes, usavam o píer da presidência da República para lançar os barcos na Baía de Guanabara, tirando proveito da vizinhança entre o Palácio do Catete e o casarão que servia de sede\garagem do clube, cujos atletas eram todos estudantes ricos, brancos, os legítimos filhos da burguesia.

Desde então, parece que o Flamengo se considera no direito de obter benefícios públicos.

De Pedro Ernesto a Witzel e Claudio Castro, são muitos os favorecimentos. Ao usurpar o Maracanã, o Flamengo - junto ao Fluminense – ignora o disparate que é discriminar a imensa torcida do Vasco em um estádio público, que custou R$ 1,2 bilhão – sem contar os sacos de dinheiro utilizados desde 1950 em manutenção e incontáveis reformas, de todos os contribuintes cariocas, inclusive muitos milhões de vascaínos, vivos e mortos.

Em 1921, segundo o Correio da Manhã, deputados tramaram para que o Flamengo recebesse do Governo federal um empréstimo para a construção do seu estádio. “O stadium da Praia Vermelha, com piscina monumental, será muito em breve uma esplêndida realidade”. O jornal considerava a iniciativa de interesse nacional: “Os poderes públicos o desoneraria (...), permitindo-lhe iniciar entre nós a cultura física”. Deu errado porque o local é área militar e o Ministério da Guerra detonou a investida.

O Flamengo – que, antes, sonhava com a Praia Vermelha - em 1926 ocupou 34.120m quadrados na Gávea, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Uma invasão. Na época, havia nas proximidades uma favela, aniquilada por incêndio criminoso nos anos 60, durante a gestão do flamenguista e governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Hoje, as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas são uma das localidades mais valorizadas pelo mercado imobiliário no Brasil.

Neste mesmo ano de 1926, a prefeitura do Distrito Federal também doou ao Botafogo o terreno para que este construísse a sua sede – o palacete de General Severiano. O Vasco não teve boa vida: precisou comprar um terreno em São Cristóvão, zona norte, para levantar o seu monumental estádio.

No ano seguinte, é negado ao Vasco pelo presidente da República, Washington Luís, a importação de cimento belga, sabendo que o país não dispunha de quantidade para uma obra da envergadura de São Januário. Pouco antes, havia liberado o produto para a construção do Jockey Club Brasileiro - espaço da elite (Fla-Flu) -, no Jardim Botânico.

O último jogo do Flamengo na Rua Paysandu foi em 1932. Depois, peregrinou em Laranjeiras e General Severiano. Enquanto isso, o interventor Pedro Ernesto, prefeito do Distrito Federal (1931-1936) nomeado por Getúlio Vargas, oferecia ao rival inúmeras vantagens: em 1933, o aforamento do terreno invadido em 1926, e a liberação de empréstimos para a construção, no local, do Estádio da Gávea – inaugurado em 1938 (Fla 0x2 Vasco).

No Natal de 1935, Pedro Ernesto articula para que o Flu repasse ao Fla o terreno próximo ao Morro da Viúva, para a construção de um ginásio. Grato por tanta gentileza, em troca, o presidente Bastos Padilha concedeu a Getúlio o título de “presidente do honra” do Flamengo.

O terreno fora doado em 1916 pela Marinha de Guerra ao Fluminense, e lá deveria ter sido construída a sede náutica do fidalgo.

Desde sempre o Flamengo forja a associação de si ao conceito de “nação” – fundado a 17 de novembro, os pioneiros acharam por bem mudar para 15 de novembro, coincidindo, assim, com a Proclamação de República.

A partir de meados da década de 1930, ações de marketing partiam do Jornal dos Sports: por civismo, antes de um Fla-Flu, em Laranjeiras, a torcida cantou o hino nacional, fazendo valer recente lei do Estado Novo. Nas páginas do periódico, era comum a relação entre Brasil e Flamengo.

Em 1936, o clube promove um concurso de fotografia, chamado “Uma vez Flamengo, sempre... tudo pelo Brasil”, com patrocínio do Jornal dos Sports. Roberto Marinho concorre, mas o clique vencedor é o de Hans Peter Lange: dois operários na construção do Estádio da Gávea – o “novo” perfil para as novas gerações de flamenguistas. Em 1937, a vencedora foi a de um torcedor com as bandeiras do Brasil e do Flamengo às mãos.

Getúlio Vargas e Eurico Dutra colaboraram com o Flamengo. Vargas concedeu um generoso empréstimo, a juros baixos. Dutra, ao assumir a presidência da República, não custou a doar ao clube de coração – do qual era associado - um valioso terreno no Centro da cidade. Também foi parcial na comemoração do 1º de maio no primeiro ano de governo: em um amistoso Flamengo x São Paulo, disputado em São Januário.

No terreno próximo ao Morro da Viúva foi construída a nova sede social do Flamengo nos quatro primeiros andares de um prédio enorme. O rival teve o apoio de Dutra para a liberação de um empréstimo de Cr$ 40 milhões da Companhia SulAmérica de Seguros. Em 1953, foi inaugurado. Vinte andares, 148 apartamentos para alugar na zona sul – nada mal em se tratando de um clube esportivo. Em 2017, o vendeu a uma imobiliária por R$ 112 milhões.

O negócio foi possível graças à intervenção do prefeito Marcelo Crivella, ao aprovar lei permitindo que o imóvel se tornasse um “empreendimento comercial”. O queridinho do sistema ainda mantém 44 apartamentos por lá.

Das poucas derrotas do Flamengo na queda de braço com governantes – em qualquer esfera – foi na década de 1950, quando os deputados do Distrito Federal e, depois, da Guanabara - e não os clubes! - decidiam sobre os preços dos ingressos no Maracanã. O impasse atravessou as gestões de Negrão de Lima (PSD) e Carlos Lacerda (UDN) na prefeitura, ao ponto de o presidente Juscelino Kubitschek (PSD) sugerir a federalização.

PONTA DIREITA

Em 1945, com a queda do Estado Novo e a redemocratização do Brasil, flamenguistas ilustres – Ary Barroso, Bastos Padilha, Zé Lins do Rego –, se filiam à UDN – o grande partido conservador da direita. Ary Barroso foi correligionário do golpista Carlos Lacerda. No entanto, muitos associados do Flamengo ficaram com Getúlio Vargas (PTB) devido ao seu apoio a Eurico Dutra, benemérito do clube, para a presidência da República.

O jornalista Sebastião Nery, no livro Folclore Político, relatou:

“Na crise que corroía o governo de Getúlio Vargas e que antecedeu ao suicídio (1954), o flamenguista Carlos Lacerda solicitou ao general Canrobert, torcedor do São Cristóvão, que depusesse Vargas. Canrobert: “Não ajudo a botar tanque na rua (...) só se vier para o Exército tudo quanto é moção. Todo mundo pedindo, até o Clube de Regatas do Flamengo”. Lacerda levou ao pé da letra e, para surpresa do general, obteve do seu clube de coração uma moção solicitando a renúncia do presidente”...

Em 1959, o flamenguista Carlinhos Niemeyer, dono do ótimo Canal 100, é contratado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) – de caráter privado - para exibir curtas-metragens de futebol antes dos filmes em todos os cinemas do Rio, em 35mm, em qualquer circunstância pró-Flamengo e anti-Vasco. O IPES era bancado pelo Estados Unidos para combater o “comunismo”. Agiu em favor do golpe de 1964: conspirou, pesquisou, fez documentários, filmes publicitários etc. contra o ex-presidente João Goulart.

Nos anos 70, a torcida do Flamengo adotaria uma versão da música de campanha do Governo federal, em tempos de ditadura militar: “Ó, meu Brasil\ eu gosto de você\ quero cantar ao mundo inteiro\ a alegria de ser brasileiro”... O presidente Emilio Garrastazu Médici, como Dutra, foi sócio do rival.

Os cartolas de hoje, como o presidente Rodolfo Landim e o vice de futebol Marcos Brás – ambos envolvidos em questões policiais e com a Justiça -  apreciavam a presença do amigo deles e ex-presidente da República, Jair Bolsonaro (FOTO), nos jogos.

O SISTEMA

O poder do Flamengo se manifesta nas autarquias. Como em 1979, quando atropelou uma determinação do Conselho Nacional de Desportos (CND) para se sagrar tricampeão carioca em dois anos.

Milagre? Claro não...

Embora a Guanabara e o Rio de Janeiro tenham se unido em 1975, a Federação Carioca de Futebol (FCF) e a Federação Fluminense de Futebol (FFF) continuaram separadas até 1978. Em 1976 e 1977, três do interior (Americano, Goytacaz e Volta Redonda) jogaram o Campeonato Carioca, convidados, e um acordo foi costurado para que aumentasse para seis em 78. Isto não caiu bem e gerou a exclusão de Americano, Goytacaz e Volta Redonda do campeonato de 1978 (no segundo semestre). A FFF apelou à Justiça e paralisou a competição. A pendenga acabou com a intervenção do CND, que fundiu a FCF e a FFF, fazendo surgir a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), obrigada – em 1978! – a organizar a competição unificada: o I Campeonato do Estado do Rio de Janeiro, com fase final em fevereiro de 1979: seis da capital e quatro do interior. Esta fase, porém, iria se transformar em campeonato à parte (“Especial”), já que o Flamengo propôs à FERJ – ignorando o CND - que o campeonato unificado ficasse para 1979. Motivo: o risco de ver o título da fase classificatória de 78 – 1x0 sobre o Vasco, gol de Rondinelli – varrido da história. O impasse acaba no Conselho Arbitral de 23 de janeiro de 1979, no qual o Flamengo perde por 9x8, não aceita, provoca no grito a suspensão do mesmo e a marcação de nova reunião para o dia seguinte, quando - de forma esquisita - convence o Madureira a mudar o seu voto, ganha por 9x8 e transforma a ex-fase final de 1978 num campeonato à parte em 1979. 

O Flamengo voltaria a ser favorecido pelo Governo federal em 1984. Com a publicidade, enfim, liberada pelo CND, o Vasco fechou com a “Bandeirante Seguros” um contrato curto, pontual, enquanto o rival passou a ser patrocinado pela “Petrobras” (LUBRAX). Companhia estatal – por longos 25 anos (até 2009) inundando-o com dinheiro público. O seu. O dos vascaínos. O de todos. Em 2013, outra estatal – a Caixa Econômica Federal – passou a patrociná-lo, até 2019. A atual mamata pública vem do Banco de Brasília.

Ex-executivo do BNDES, o então presidente do Flamengo, Bandeira de Mello, fechou com um patrocinador: a Peugeot. Eis que o BNDES liberou financiamento de R$ 154 milhões à Peugeot Citroën do Brasil. Em 2015, com o fim deste contrato, a Jeep (Fiat Chrysler Automobiles) passou a patrocinar o rival. Logo, foi contemplada com empréstimo de R$ 3 bilhões. Coincidência. Inclusive, porque Bandeira não era do setor comercial e nem sequer participou das negociações. 

Na Justiça e nas delegacias o Flamengo também é poderoso. Há incontáveis exemplos – como esses:

Em 1986, o Caso das Papeletas Amarelas - o presidente do clube, George Helal, admitiu que Cz$ 300 mil do clube foram parar na conta do diretor de arbitragem da FERJ, Paulo Antunes. Segundo a revista Placar tratava-se de suborno para ser favorecido contra os times “pequenos”. O Ministério Público-RJ e a policia investigaram (!), sem conclusão de que houve crime. O caixa-dois envolvia Cz$ 4 milhões e houve desdobramentos jurídicos.

Em 2019, o Assassinato do Ninho do Urubu - incêndio em containers usados como dormitório resultou na morte de dez jovens das categorias de base. Ninguém foi preso, e nem sequer o clube – os cartolas estavam cientes do risco - foi punido.

O caso tramita a passos de tartaruga na 36ª Vara Criminal.

O “ninho” se chama Centro de Treinamento George Helal.

7 de abril de 2024

RACISMO: O CENTENÁRIO DA RESPOSTA HISTÓRICA



Há um século, no dia 7 de abril de 1924, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, remeteu ao presidente da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (AMEA) e do Fluminense, Arnaldo Guinle, uma carta – a Resposta Histórica – que rompeu a estrutura do foot-ball brasileiro. Através dela, o clube abria mão de participar do campeonato organizado pela liga dos “grandes”, com seus players e torcedores brancos. Isto porque se viu forçado a excluir 12 jogadores – a maioria de pobres e negros. Além do mais, os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco – campeão carioca de 1923! - só tinha o remo e deveria ser rebaixado, com Mangueira e Andarahy...

Em sua estreia na primeira divisão, em 1923, o Vasco conquistou o título com jogadores das classes populares. Não foi o primeiro a ter pobres ou pretos, mas foi o primeiro a esmagar os que se julgavam a fina flor da sociedade.

Naqueles tempos de racismo e xenofobia na capital da República – exacerbados, após os festejos pelo Centenário da Independência do Brasil (1922) - a proeza dos Camisas Negras foi tão marcante quanto a do preto Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burns, em 1908. Antes, o boxe era segregado no Estados Unidos. Ou a de Jessé Owens calando o Estádio Olímpico de Berlim, repleto de nazistas, em 1936.

Enquanto se derrubava um símbolo da cidade – o Morro do Castelo – pobre, luso-africana, para dar lugar ao “futuro”, surgia um time de foot-ball – o sport da modernidade – exatamente com a imagem que a elite pretendia sepultar... O Vasco expressava o triunfo da associação trem-subúrbio-pobre sobre carro importado-zona sul- vida moderna.

O regulamento da AMEA, criada por Flamengo, Fluminense e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.) ou passível de receber gorjetas. 

A Resposta Histórica se transformou em marca do Vasco, eternizando-o como defensor dos valores democráticos, da inclusão social e contra o racismo. Como observa o geógrafo Leandro Fontes, tornou público, com rara precisão e originalidade, a natureza antagônica do Vasco e dos fundadores da AMEA.

O Vasco forçou a integração dos desportistas negros e operários, algo inconcebível para os rivais naquela época. Exemplo disso foi a eleição para presidente, em 1904, do funcionário da Central do Brasil, Candido José de Araújo - o primeiro presidente negro entre os “grandes”. 

ANTECEDENTES

A Liga Metropolitana de Football (LMF) promoveu o primeiro Campeonato Carioca, em 1906. O presidente da LMF era Francis Henry Walter, um inglês ricaço, dono da firma de comércio exterior Walter Brothers & Company. Presidente do Fluminense de 1903 até 1908, ele também foi sócio, atleta e presidente do Flamengo, em 1905-1906, tendo sido, portanto, o mandatário dos coirmãos Fla-Flu ao mesmo tempo.

O glamour não resistiu a Bangu. Dos sete mil habitantes, 1.417 do bairro da zona norte batiam ponto na Companhia Progresso Industrial do Brasil. O Paiz: “torcem fervorosamente”. Surpresos com a recepção que tiveram, os “grandes” desistiram da LMF para fundar a Liga Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA), presidida, é claro, por Francis Henry Walter.

Regulamento: “A directoria da Liga resolveu, por unanimidade de votos, que não sejam registrados, como amadores, as PESSOAS DE CÔR. (...)” - 22 de maio de 1907. 

REGATAS

Sob a influência de Botafogo, Flamengo e Guanabara, a Federação Brasileira das Sociedades do Remo (FBSR) resolveu pressionar o Vasco a partir de 1904.

Com as guarnições vascaínas formadas por imigrantes portugueses e brasileiros pobres, empregados no comércio, a FBSR tentou proibir - sem sucesso, devido à intervenção do Vasco -, que os remadores trabalhassem em hotéis, botequins, cafés, quiosques, armazéns de secos e molhados, cervejarias, confeitarias, charutarias, bilhares, casas de leite, sorvetes e bebidas, casas de barbeiro e cabeleireiro, agências de locação de criados ou bilhetes de loterias etc.

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. 

Na era dourada do remo, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Em 1914, alegando que Claudionor Provenzano não era amador, a FBSR o elimina, mas o Vasco reverte a decisão. Claudionor não tinha a boa vida dos remadores dos rivais e recebia ajuda de custo. No fundo, uma reação da elite – no ano seguinte, é baixada uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos: naturalmente o Vasco, tricampeão.

ENTRELINHAS

A LMF foi dissolvida no final de 1907, por questões esportivas envolvendo Fluminense e Botafogo, mas quase nada mudou com a inauguração da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (LMSA): players de cor preta e brancos pobres continuavam preteridos. As invés de proibirem de forma direta, os passam a se utilizar dos estatutos, graças a regras que davam margem para interpretações de uma comissão de sindicância.

Em 1917, a LMSA vira Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e o estatuto apresenta uma novidade para ajudar o trabalho da comissão de sindicância: o analfabetismo torna-se um quesito para impedir a entrada ou excluir jogadores. No início do século XX, a maior parte da população brasileira era analfabeta, especialmente os de pele preta.

PRIMEIROS CHUTES

O Vasco institui o seu departamento de futebol em 1916. Estreia na terceira divisão da LMSA e só chega à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) Fluminense.

Enquanto a principal liga – a LMDT - era controlada pelos “grandes”, havia outras, como a Associação Athletica Suburbana e a Liga Suburbana de Football. Jogos no campo do Jardim Botânico reuniam multidões. Foi neste celeiro que o Vasco montou o seu time – o critério de escolha era ser bom de bola, seja qual fosse a cor, a etnia ou a condição financeira.

Inclusão social que acontecia desde sempre, no remo.

O Vasco da Rua Santa Luzia abria suas portas aos jogadores dos clubes pequenos e agremiações dos subúrbios, e, a cada ano, os Camisas Negras se qualificavam. Em 1921, o clube alugou o campo da Rua Morais e Silva, na Tijuca, ao Sport Club Rio de Janeiro, para treinos e jogos.

SEGUNDA DIVISÃO

O ano de 1922 marcou o Centenário da Independência do Brasil, tempo em que a intelectualidade e mesmo o Estado pregavam a teoria racial do embranquecimento da sociedade. Crescia o preconceito contra imigrantes portugueses - em sua maioria, pobres e de baixa instrução: os vascaínos... Foi neste cenário que o Vasco – com um time repleto de players negros e pobres – conquistou o título carioca da segunda divisão.

Para subir à primeira divisão, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). A 5 de novembro de 1922, o jogo ficou no 0x0, o que provocava a realização de um tira-teima.

Uma questão atravessou o campeonato: a LMDT recebera denúncia de que Leitão, do Vasco, era analfabeto e sua inscrição estaria irregular. Ele foi convocado a escrever uma carta - diante dos cartolas. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. Os elitistas mal sabiam que o player tivera aulas de Língua Portuguesa. A imprensa se posicionou a favor do Vasco.

Depois de muita briga, a LMDT resolve não organizar o jogo-desempate, decreta o América campeão do Rio de Janeiro, não rebaixa o São Cristóvão e o Vasco obtém o acesso à primeira divisão.

ALFABETIZAÇÃO

Logo em sua estreia na primeira  divisão, o Vasco conquista o título de campeão carioca de 1923. Em campo, com uma campanha avassaladora. Fora de campo, graças ao associado Custódio Moura. Bibliotecário do clube, ele  ensinava, de graça, os jogadores a ler e a escrever. A LMDT perseguia os vascaínos por causa do analfabetismo e seus cartolas frustraram-se quando os players, mesmo que sem boa ortografia, escreveram os dados solicitados e o pedido de inscrição.

No primeiro Clássico dos Milhões, Vasco 3x1, de virada, na Rua Paysandu, o Flamengo tentou - sem sucesso - anular o jogo na LMDT sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, em condição irregular. 

O Correio da Manhã toma partido do time da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

REVOLTA DAS ELITES

Após a conquista do título de 1923 pelos Camisas Negras, os clubes da elite rompem com a LMDT e criam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA), cuja comissão organizadora trabalhava na sede do Fluminense. Fundadores: América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e o Bangu. O Vasco, então o campeão, com a maior torcida – e as maiores rendas – foi sumariamente excluído.

A comissão na AMEA se reuniu a 30 de março de 1924 e decidiu solicitar que o Vasco excluísse 12 de seus jogadores. O objetivo era impedi-lo de ser campeão com jogadores das camadas populares. O presidente do Vasco, José Augusto Prestes, ainda participou de uma reunião com a comissão organizadora, em uma última tentativa para dissolver o impasse.

Deu errado. No dia seguinte, a AMEA fez publicar nos jornais as resoluções que colocavam o Vasco em desvantagem. Queriam-no sem os pretos e pobres, em posição secundária. A 7 de abril de 1924, com o apoio unânime da diretoria,  José Augusto Prestes assinou o Ofício n.º 261 - a “Resposta Histórica”.

O Clube desistia de fazer parte da AMEA e ficaria com seus jogadores.

SÃO JANUÁRIO

Vasco e Flamengo já tinham seus terrenos – um comprado (665.895 contos de réis por 65.445m quadrados, em São Cristóvão); o outro, invadido. A alegação de que o Vasco não estava à altura dos “grandes” por não ter um estádio levou os vascaínos a inaugurarem São Januário, em 1926, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).

Definitivamente, o clube mudava de endereço, do Centro da cidade para a zona norte.