
CRÔNICA DE DRUMMOND NO CORREIO DA MANHÃ (1965)
IMAGENS CORDIAIS
Das profissões que rendem pouco, sempre achei a de ascensorista uma das
menos divertidas. Para nós, o elevador é a caixa onde nos metemos por alguns
instantes, de passagem para algum lugar, sem qualquer sentimento que nos ligue
aos companheiros eventuais. Para o ascensorista é a prisão a que está condenado
durante a quarta parte do dia, ou da vida. Prisão que se abre a todo momento,
com regularidade monótona, e de que ele não pode fugir. Sobe e desce, sobe e
desce, e não sai da sua jaula. Tenho notado que no fim de certo tempo muitos
ascensoristas perdem a cor, emagrecem. A melancolia é neles talvez uma doença profissional.
Se a administração do edifício tem coração, passam a outro serviço, e
redescobrem o ar puro, a liberdade, o prazer de mover as pernas. Naquela casa
onde trabalhei quase 30 anos, pergunto pelo Valdemar, que há muito não via.
- O Valdemar anda doente, teve que deixar o carro. Está na portaria.
Ia perguntar pelo Oscar, que também andava sumido, mas é o próprio Oscar
que me aparece, também magro e triste, afastado da obrigação de subir e descer
na gaiola enervante, e que me diz:
- Sabia que o Amigo morreu?
Não sabia. O Amigo! Pois justamente o Amigo era, entre todos os
ascensoristas, aquele que espalhava em sua cabina a alegria de viver. Quem não
o conheceu, no Centro do Rio de Janeiro? Ascensorista do Ministério da Educação
e do Edifício Darke, com 12 horas diárias de batente e uma barca para Niterói
de madrugada e outra à noite, sem motivo algum para agradecer à vida, ele
agradecia e nos comunicava seu otimismo gratuito. Fez da palavra “amigo” um uso
universal e aliciador, pois assim chamava a todos que entrassem no seu carro,
fosse homem, fosse mulher, conhecido ou desconhecido, bispo, general ou
mata-mosquito, de cara aberta ou cara de tigre. Se o próprio tigre estivesse na
fila, receberia o mesmo tratamento – e ficava amigo do Amigo, a quem este nome
foi dado em retribuição geral. Uma professora que veio ao Rio com bolsa de
estudos escreveu: “Aprendemos mais com ele do que em todos os tratados de psicologia,
pois o Amigo nos mostrou que a vida é fácil de ser vivida se assim desejamos”.
Ninguém sabia que ele se chama Afonso Ventura. Mas todos sabiam que seu
maior amor era o Vasco da Gama. Liam-se no seu rosto as vitórias do Vasco. As
derrotas, não era possível ler, pois o rosto do Amigo continuava a espelhar a
vitória anterior ou já espelhava a próxima vitória, que seria infalível, 4x0, “É
o maior". O Vasco, para ele, ganhava sempre: no máximo, deixava de ganhar “desta
vez!”. Marcos Carneiro de Mendonça, figura lendária do Fluminense, tornou-o
mais feliz do que era, arranjando-lhe o título de sócio proprietário número 16
do Vasco.
Um dia o Amigo sumiu. Os únicos elevadores alegres do Rio perderam a
graça. O Vasco deve ter sentido falta do seu torcedor doente, baixou de
produção. O Amigo mudara-se para Brasília, onde talvez a dobradinha lhe
suavizasse a pobreza, dispensando-o de trabalhar em dois horários. E lá morreu
um dia desses, não sei se a tempo de saborear as alegrias da Taça Guanabara.
Oscar conta-me que os colegas cariocas mandaram celebrar missa por sua
alma, convidaram o Vasco, o Vasco mandou representante. Imagino a alegria
infinita da alma, sentindo o Vasco presente.
Publicada no
jornal Correio da Manhã em 1965.