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7 de abril de 2024

RACISMO: O CENTENÁRIO DA RESPOSTA HISTÓRICA



Há um século, no dia 7 de abril de 1924, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, remeteu ao presidente da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (AMEA) e do Fluminense, Arnaldo Guinle, uma carta – a Resposta Histórica – que rompeu a estrutura do foot-ball brasileiro. Através dela, o clube abria mão de participar do campeonato organizado pela liga dos “grandes”, com seus players e torcedores brancos. Isto porque se viu forçado a excluir 12 jogadores – a maioria de pobres e negros. Além do mais, os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco – campeão carioca de 1923! - só tinha o remo e deveria ser rebaixado, com Mangueira e Andarahy...

Em sua estreia na primeira divisão, em 1923, o Vasco conquistou o título com jogadores das classes populares. Não foi o primeiro a ter pobres ou pretos, mas foi o primeiro a esmagar os que se julgavam a fina flor da sociedade.

Naqueles tempos de racismo e xenofobia na capital da República – exacerbados, após os festejos pelo Centenário da Independência do Brasil (1922) - a proeza dos Camisas Negras foi tão marcante quanto a do preto Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burns, em 1908. Antes, o boxe era segregado no Estados Unidos. Ou a de Jessé Owens calando o Estádio Olímpico de Berlim, repleto de nazistas, em 1936.

Enquanto se derrubava um símbolo da cidade – o Morro do Castelo – pobre, luso-africana, para dar lugar ao “futuro”, surgia um time de foot-ball – o sport da modernidade – exatamente com a imagem que a elite pretendia sepultar... O Vasco expressava o triunfo da associação trem-subúrbio-pobre sobre carro importado-zona sul- vida moderna.

O regulamento da AMEA, criada por Flamengo, Fluminense e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.) ou passível de receber gorjetas. 

A Resposta Histórica se transformou em marca do Vasco, eternizando-o como defensor dos valores democráticos, da inclusão social e contra o racismo. Como observa o geógrafo Leandro Fontes, tornou público, com rara precisão e originalidade, a natureza antagônica do Vasco e dos fundadores da AMEA.

O Vasco forçou a integração dos desportistas negros e operários, algo inconcebível para os rivais naquela época. Exemplo disso foi a eleição para presidente, em 1904, do funcionário da Central do Brasil, Candido José de Araújo - o primeiro presidente negro entre os “grandes”. 

ANTECEDENTES

A Liga Metropolitana de Football (LMF) promoveu o primeiro Campeonato Carioca, em 1906. O presidente da LMF era Francis Henry Walter, um inglês ricaço, dono da firma de comércio exterior Walter Brothers & Company. Presidente do Fluminense de 1903 até 1908, ele também foi sócio, atleta e presidente do Flamengo, em 1905-1906, tendo sido, portanto, o mandatário dos coirmãos Fla-Flu ao mesmo tempo.

O glamour não resistiu a Bangu. Dos sete mil habitantes, 1.417 do bairro da zona norte batiam ponto na Companhia Progresso Industrial do Brasil. O Paiz: “torcem fervorosamente”. Surpresos com a recepção que tiveram, os “grandes” desistiram da LMF para fundar a Liga Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA), presidida, é claro, por Francis Henry Walter.

Regulamento: “A directoria da Liga resolveu, por unanimidade de votos, que não sejam registrados, como amadores, as PESSOAS DE CÔR. (...)” - 22 de maio de 1907. 

REGATAS

Sob a influência de Botafogo, Flamengo e Guanabara, a Federação Brasileira das Sociedades do Remo (FBSR) resolveu pressionar o Vasco a partir de 1904.

Com as guarnições vascaínas formadas por imigrantes portugueses e brasileiros pobres, empregados no comércio, a FBSR tentou proibir - sem sucesso, devido à intervenção do Vasco -, que os remadores trabalhassem em hotéis, botequins, cafés, quiosques, armazéns de secos e molhados, cervejarias, confeitarias, charutarias, bilhares, casas de leite, sorvetes e bebidas, casas de barbeiro e cabeleireiro, agências de locação de criados ou bilhetes de loterias etc.

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. 

Na era dourada do remo, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Em 1914, alegando que Claudionor Provenzano não era amador, a FBSR o elimina, mas o Vasco reverte a decisão. Claudionor não tinha a boa vida dos remadores dos rivais e recebia ajuda de custo. No fundo, uma reação da elite – no ano seguinte, é baixada uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos: naturalmente o Vasco, tricampeão.

ENTRELINHAS

A LMF foi dissolvida no final de 1907, por questões esportivas envolvendo Fluminense e Botafogo, mas quase nada mudou com a inauguração da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (LMSA): players de cor preta e brancos pobres continuavam preteridos. As invés de proibirem de forma direta, os passam a se utilizar dos estatutos, graças a regras que davam margem para interpretações de uma comissão de sindicância.

Em 1917, a LMSA vira Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e o estatuto apresenta uma novidade para ajudar o trabalho da comissão de sindicância: o analfabetismo torna-se um quesito para impedir a entrada ou excluir jogadores. No início do século XX, a maior parte da população brasileira era analfabeta, especialmente os de pele preta.

PRIMEIROS CHUTES

O Vasco institui o seu departamento de futebol em 1916. Estreia na terceira divisão da LMSA e só chega à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) Fluminense.

Enquanto a principal liga – a LMDT - era controlada pelos “grandes”, havia outras, como a Associação Athletica Suburbana e a Liga Suburbana de Football. Jogos no campo do Jardim Botânico reuniam multidões. Foi neste celeiro que o Vasco montou o seu time – o critério de escolha era ser bom de bola, seja qual fosse a cor, a etnia ou a condição financeira.

Inclusão social que acontecia desde sempre, no remo.

O Vasco da Rua Santa Luzia abria suas portas aos jogadores dos clubes pequenos e agremiações dos subúrbios, e, a cada ano, os Camisas Negras se qualificavam. Em 1921, o clube alugou o campo da Rua Morais e Silva, na Tijuca, ao Sport Club Rio de Janeiro, para treinos e jogos.

SEGUNDA DIVISÃO

O ano de 1922 marcou o Centenário da Independência do Brasil, tempo em que a intelectualidade e mesmo o Estado pregavam a teoria racial do embranquecimento da sociedade. Crescia o preconceito contra imigrantes portugueses - em sua maioria, pobres e de baixa instrução: os vascaínos... Foi neste cenário que o Vasco – com um time repleto de players negros e pobres – conquistou o título carioca da segunda divisão.

Para subir à primeira divisão, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). A 5 de novembro de 1922, o jogo ficou no 0x0, o que provocava a realização de um tira-teima.

Uma questão atravessou o campeonato: a LMDT recebera denúncia de que Leitão, do Vasco, era analfabeto e sua inscrição estaria irregular. Ele foi convocado a escrever uma carta - diante dos cartolas. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. Os elitistas mal sabiam que o player tivera aulas de Língua Portuguesa. A imprensa se posicionou a favor do Vasco.

Depois de muita briga, a LMDT resolve não organizar o jogo-desempate, decreta o América campeão do Rio de Janeiro, não rebaixa o São Cristóvão e o Vasco obtém o acesso à primeira divisão.

ALFABETIZAÇÃO

Logo em sua estreia na primeira  divisão, o Vasco conquista o título de campeão carioca de 1923. Em campo, com uma campanha avassaladora. Fora de campo, graças ao associado Custódio Moura. Bibliotecário do clube, ele  ensinava, de graça, os jogadores a ler e a escrever. A LMDT perseguia os vascaínos por causa do analfabetismo e seus cartolas frustraram-se quando os players, mesmo que sem boa ortografia, escreveram os dados solicitados e o pedido de inscrição.

No primeiro Clássico dos Milhões, Vasco 3x1, de virada, na Rua Paysandu, o Flamengo tentou - sem sucesso - anular o jogo na LMDT sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, em condição irregular. 

O Correio da Manhã toma partido do time da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

REVOLTA DAS ELITES

Após a conquista do título de 1923 pelos Camisas Negras, os clubes da elite rompem com a LMDT e criam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA), cuja comissão organizadora trabalhava na sede do Fluminense. Fundadores: América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e o Bangu. O Vasco, então o campeão, com a maior torcida – e as maiores rendas – foi sumariamente excluído.

A comissão na AMEA se reuniu a 30 de março de 1924 e decidiu solicitar que o Vasco excluísse 12 de seus jogadores. O objetivo era impedi-lo de ser campeão com jogadores das camadas populares. O presidente do Vasco, José Augusto Prestes, ainda participou de uma reunião com a comissão organizadora, em uma última tentativa para dissolver o impasse.

Deu errado. No dia seguinte, a AMEA fez publicar nos jornais as resoluções que colocavam o Vasco em desvantagem. Queriam-no sem os pretos e pobres, em posição secundária. A 7 de abril de 1924, com o apoio unânime da diretoria,  José Augusto Prestes assinou o Ofício n.º 261 - a “Resposta Histórica”.

O Clube desistia de fazer parte da AMEA e ficaria com seus jogadores.

SÃO JANUÁRIO

Vasco e Flamengo já tinham seus terrenos – um comprado (665.895 contos de réis por 65.445m quadrados, em São Cristóvão); o outro, invadido. A alegação de que o Vasco não estava à altura dos “grandes” por não ter um estádio levou os vascaínos a inaugurarem São Januário, em 1926, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).

Definitivamente, o clube mudava de endereço, do Centro da cidade para a zona norte. 

A RESPOSTA HISTÓRICA NOS TRAÇOS DE ZIRALDO


MISSIVA SUBVERSIVA: A RÉPLICA DO PLAYBOY

A RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924. Ofício nr. 261 Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle (FOTO) M. D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). 

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número de nossos associados. Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a deve aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consórcios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923. São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. Nesses termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA. Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V. Exa. At. Vnr. Obrigado (a) Dr. José Augusto Prestes. Presidente.


RÉPLICA À RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 17 de abril de 1924. Exmo. Sr. José Augusto Prestes, 

Accusando o recebimento do officio desse club, datado de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], que se nos chegou às mãos no dia 11, prevalecemo-nos desta opportunidade para fazer algumas considerações sobre o que ali se diz a respeito da primeira e única entrevista que tivemos com V. Ex. Com referencia ao primeiro paragrapho, devo dizer que as resoluções divulgadas pela imprensa não podiam ter sido levadas ao vosso conhecimento pela leitura de jornaes, porquanto, na entrevista acima alludida, tivemos occasião de lêr integralmente o documento que foi posteriormente publicado, depois do que, demos sobre elle, todas as explicações necessárias. Não houve, portanto, como parece se inferir desta parte do vosso officio, sonegação de informações que uma vez conhecidas pudessem modificar a attitude do Club de Regatas Vasco da Gama. Quanto ao segundo paragrapho, cumpre-me observar que a organização da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos já era conhecida de V. Ex., antes do pedido de filiação desse club, datado de 15 de março ultimo, porquanto os presentes estatutos são, por assim dizer, os mesmos que foram apresentados à Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, dos quaes V. Ex. tomou conhecimento, por isso sobre elle exerceu a sua critica no seio daquella instituição. Ora, já nesse projecto os direitos dos clubs, actualmente fundadores da A. M. E. A. não eram os mesmos concedidos ao club por V. Ex. dirigido. Por esta razão, foi com surpresa que lemos o 2o paragrapho do referido officio, cujo conceito se nos afigura sobremodo tardio. Quanto ao 3o paragrapho, o Club de Regatas Vasco da Gama labora em evidente erro, porquanto a Commissão Organizadora nunca poderia ter negado a quem quer que fosse o direito de defesa e isto mesmo foi declarado a V. Ex. pelo signatário do presente officio. Declaramos então que uma vez filiado, o Club de Regatas Vasco da Gama entraria com um novo officio, demonstrando satisfazerem, os seus jogadores, a todas as condições legaes do amadorismo e que, uma vez provada a improcedencia da syndicancia feita pela A. M. E. A., as respectivas inscripções seriam concedidas. Dissemos mais, que se havia, naquelle momento, discrepancias entre as informações fornecidas por esse club e a syndicancia por nós realizada, a responsabilidade dahi decorrente recaia exclusivamente sobre o Club de Regatas Vasco da Gama, e que, como o mesmo acontecia aos demais clubs, tonava-se impossivel discutirmos todos esses casos particulares naquelle momento, dada a exiguidade de tempo que nos separava do inicio dos campeonato officiaes da actual temporada sportiva. Achamos, portanto, que melhor seria organizar a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos para em seguida tratarmos desses casos particulares. Finalmente, dissemos a V. Ex. que embora estivessemos promptos a attender aos reclamos do vosso club a este respeito, alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular. A isto retorquiu V. Ex. não ser possivel, visto como o regimen de trabalho pesado do commercio portuguez não permittia que os seus empregados deixassem as suas occupações para se entregar ao preparo indispensavel aos jogos dos campeonatos officiaes da A. M. E. A. Eis porque, Sr. presidente, tomando conhecimento do officio de V. Ex., de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], lastimamos que a boa acolhida que mereceram os nossos conceitos por parte de V. Ex. não tivessem se traduzido posteriormente numa acção de solidariedade do vosso club, para com aquelles que souberam, nas primeiras horas de actividade nos sports terrestres desse valoroso gremio, estender-lhe a mão para, à sombra desta boa vontade, sympathia e solicitude, crescer na sua estima e consideração. Permitta V. Ex., sem outro motivo, que me subscreva com toda a consideração e estima, o criado, attento e obrigado. Arnaldo Guinle, presidente da Comissão Organizadora.

PRECONCEITO EXPLÍCITO

(...) alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle [o Vasco da Gama] fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular (Ofício da AMEA em réplica à Resposta Histórica, de 17 de abril de 1924).

Havia o interesse dos cartolas da AMEA que o Vasco formasse times só com portugueses, ao estilo do Luzitania S.C. Assim, o embate que eles sonhavam contra os “grandes” da época (só tinham jogadores brancos), em uma concepção racialista, seria um confronto de raças: “portuguesa” x “brasileira”.

Além disso, o documento da AMEA expõe o desejo de colocar o Vasco como um clube exclusivo de portugueses, sem os negros, e o interesse dos dirigentes da nova liga em estigmatizá-lo como um pária estrangeiro, que atuava contra os “legítimos clubes brasileiros”.

Logo o Vasco da Gama! O mais brasileiro dos “grandes” do Rio de Janeiro, aquele que melhor representava – e ainda representa - a diversidade da população.

 


EM 1923, FLA RECORREU À JUSTIÇA CONTRA VASCAÍNO ANALFABETO

No primeiro “Clássico dos Milhões”, dia 29 de abril de 1923, na Rua Paysandu, Junqueira abriu o placar para o Flamengo, mas o Vasco virou com Cecy (2) e Arlindo, ganhando por 3x1. Isso em sua estreia na divisão principal e com um time de players pretos, pobres e analfabetos – proibidos no regulamento. O placar o manteve na liderava o Campeonato Carioca – proeza inaceitável para os que se julgavam a nata da sociedade. O Flamengo tentou anular o jogo na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, portanto, em condição irregular.

O Correio da Manhã tomou partido do clube da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

Mesmo dominada pela dupla Fla-Flu, América e Botafogo, a liga deu ganho de causa ao Vasco, que não perdeu os dois pontos da vitória.

GRAMÁTICA

O tapetão da LMDT prejudicou o Vasco na segunda divisão.

Em 1920, o Carioca F.C. promoveu uma campanha na imprensa contra a escalação de Quintanilha e Esquerdinha, acusando-os de profissionais. A liga os excluiu, expondo a má vontade dos clubes da zona sul. Impedido de escalar os dois, o time perde por 2x0 e 2x1, se afastando do título. Antes, o Vasco 4x1 Carioca F.C., no turno, tinha sido anulado devido à escalação irregular de Leão.  

Em 1922, a LMDT recebeu denúncia de que o player Leitão era analfabeto e o convocou a escrever uma carta - diante dos cartolas. Era demais. A questão atravessou o Campeonato Carioca da segunda divisão. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Porém, Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. A imprensa se posicionou a favor do Vasco. Um mês depois, a LMDT acatou o recurso, confirmando o título de campeão.

Para subir à primeira divisão de 1923, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). Isso aconteceu e, outra vez, Leitão foi colocado na chapa. Os elitistas mal sabiam que ele tivera aulas de Língua Portuguesa e, diante dos inquisidores, fez sua inscrição em duas etapas: a ficha e o requerimento para jogar.

No livro O Negro do Futebol Brasileiro, Mario Filho revela: “A inscrição tornou-se um exame de primeiras letras. (...) nome, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalhou”... Aulas particulares de Língua Portuguesa não bastavam: Leitão, Paschoal, Torterolli e Mingote tiveram de frequentar uma escola, na Rua da Quitanda.      

A elite não engolia o Vasco – seus pretos, mestiços e brancos pobres – e criou uma comissão de sindicância – Reis Carneiro, do Flu, Diocesano Gomes, do Fla e Armando de Paula Freitas, do América. Bastava provar que era analfabeto ou não trabalhava para o player ser excluído. Pelo regulamento, só estudantes podiam não trabalhar, ou seja, os filhos de boa família.

Artigo publicado na revista Sport retrata o sentimento dos rivais do Vasco, nas primeiras décadas do século XX:

“(...) Frequentamos uma academia, temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval, jantamos no Rotisserie, visitamos as conferências literárias, vamos ao Five O’clock; mas quando nós resolvemos a praticar esporte às vezes somos obrigados a jogar com um operário, limador, mecânico, chofer e profissões que absolutamente não estão em relação ao meio onde vivemos. Nesse caso a prática torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão”.

SUBVERSÃO

No segundo Clássico dos Milhões, em Laranjeiras, os torcedores (brancos) dos “grandes” se uniram na arquibancada contra o time indesejado. Um gol mal anulado pelo juiz Carlito Rocha, futuro presidente do Botafogo, decretou a derrota do Vasco por 3x2 para o Flamengo. O Fluminense, tendo na presidência do ricaço Arnaldo Guinle, cobrou dez mil contos de reis por supostos estragos cometidos por vascaínos no seu estádio.

Mario Filho, sobre a comemoração: “Depois do jogo, os torcedores do Flamengo (...) compram uma réplica de tamanco de 2,5m, levada no primeiro carro da comitiva de mais de cem automóveis. (...) Praia do Flamengo, Glória, Largo da Lapa, para jogar bombas no Bar Capela, Avenida Mem de Sá, Rua Evaristo na Veiga, Avenida Rio Branco, Rua Larga, Rua Visconde de Itaúna, Praça Onze, para jogar bombas da Cervejaria Vitória. (...)”.

O que aconteceu de nada teve de brincadeira, como destaca o geólogo Fernando Ferreira, ressaltando o caráter racista, elitista e xenófobo da carreata, na perseguição ao preto, ao pobre e ao português.

O fim da escravidão e do Império tinha pouco mais de três décadas. O racismo e a aversão aos portugueses ainda impregnavam a sociedade.

A estrutura montada pela elite – e para a elite - no foot-ball do então Distrito Federal também seria quebrada em 1926, pelo São Cristóvão, e em 1933, pelo Bangu, mas só o Vasco tornou-se “grande”.

As famílias, que da missa iam diretamente para o estádio de Laranjeiras, agora dividiam os espaços com os portugueses e seus empregados, pobres, o que era – e ainda é – o exemplo é a LICITAÇÃO DO MARACANÃ, com a tentativa de exclusão da torcida de perfil suburbano (popular) - uma subversão da hierarquia social.

23 de novembro de 2023


GERSON SERIA PROIBIDO DE JOGAR NO FLA 

Flamengo lançou um camisa preta plagiando outra, do Vasco.

Gerson - jogador do rival - na peça publicitária diz: “Orgulho das nossas raízes”. 

Quais?! 

A preconceituosa e racista de jogadores brancos por mais de duas décadas? 

Isso, após o lançamento do manto dos Camisas Negras. 

...É ou não é manipulação da opinião pública? 

4 de outubro de 2023


58.012.980 CIGARROS PARA RUSSINHO


Antes da chegada das multinacionais, o mercado brasileiro de cigarros era abastecido por três empresas – a Grande Manufatura de Fumos e Cigarros Veado*, a Companhia Leite & Alves e a Souza Cruz, única sobrevivente, como subsidiária da British American Tobacco. O bicho silvestre não simbolizava homossexualismo. E coube ao Veado (cujo slogan era “Para chique ou pé-rapado”), em 1930, promover uma pioneira ação de marketing esportivo: o “Grande Concurso Nacional Monroe” para apontar o jogador mais popular do Brasil. Havia diversas urnas – uma delas, na Rua da Assembleia – e a cédula era um maço vazio de alguma marca da empresa (“Monroe” era o mais consumido). Todos concorriam a prêmios de até sete contos de réis. Mais de seis milhões de maços vendidos graças ao concurso, com Russinho sendo eleito por 2.900.649 votos (maços), deixando Fortes, do Flamengo, no cheirinho.

Como prêmio, o artilheiro ganhou um carro – uma “baratinha” da Chrysler –, o que inspirou o vascaíno Noel Rosa a citá-lo na canção “Quem dá mais?”, na qual o compositor brinca com o prêmio luxuoso e a dificuldade do clube para renovar o seu contrato – “(...) o Vasco paga o lote na batata /E, em vez de barata, /oferece ao Russinho uma mulata”...

Numa época em que não existia instituto de pesquisa de opinião pública, um concurso com mais de seis milhões votos – o maior de todos – é, sem dúvida, parâmetro para a avaliação da popularidade dos times de futebol.

* A Grande Manufatura de Fumos e Cigarros Veado, do Rio de Janeiro, é herdeira da Imperial Estabelecimento de Fumo, a primeira fábrica de cigarros do Brasil.

2 de outubro de 2023


OS CAMISAS NEGRAS NA TELA

Os rivais de hoje – Botafogo, Flamengo, Fluminense – eram racistas e xenófobos: não aceitavam pretos ou pobres como sócios e muito menos permitiam que os representassem nos gramados. O foot-ball era da elite. Isso até 1923, quando o Vasco, um time do Centro da cidade repleto de players pretos, pobres e\ou analfabetos, conquistou o Campeonato Carioca. Um feito tão marcante quanto o negro Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burn, em 1908. Antes, o boxe era segregado. Ou Jesse Owens calando a multidão de nazistas no Estádio Olímpico de Berlim, em 1936.

A saga desse time, os “Camisas Negras”, a mais bela do futebol brasileiro, irá virar longa-metragem, com direção do ator Lázaro Ramos e produção da Amazon Studios, nos cinemas em 2024. O roteiro tem a colaboração do Centro de Memória do Vasco.           

Será uma obra de ficção baseada na vergonhosa perseguição aos "Camisas Negras" já imortalizada na “Resposta Histórica”, o documento de 1924 assinado pelo ex-presidente José Augusto Prestes – marco na luta antirracista no futebol brasileiro.    


VILÕES DE SEMPRE

Um século depois, o Vasco outra vez perseguido pelos rivais da zona sul, impedido de atuar em São Januário e no Maracanã (usurpado, sob o rótulo de “licitação”) ao mesmo tempo. Motivo: os de 1923.

Na derrota para o Goiás por 1x0, em junho, vascaínos atiraram rojões no gramado e a Polícia Militar respondeu disparando bombas de gás pimenta e cacetadas. Nos dias seguintes, o juiz Marcelo Rubioli proibiu jogos em São Januário. Alegação: é cercado por uma favela perigosa a Barreira do Vasco – onde o tráfico de drogas gera insegurança [não é verdade]: “São ruas estreitas (...) sempre lotadas de torcedores se embriagando antes de entrar no estádio”.  

O argumento foi acolhido pelo Ministério Público-RJ, o qual só liberou São Januário três meses depois, graças a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) aceito pelo clube.    

1 de outubro de 2023

OS CAMISAS NEGRAS - O ponta-direita Paschoal (o sexto, a partir da esquerda), cujo apelido era "Trem de luxo", defendeu o Vasco entre 1922 e 1932. Depois que pendurou as chuteiras, continuou a trabalhar como funcionário do clube até a morte, aos 87 anos, em 1987. Nos seus tempos de jogador os rivais (América, Botafogo, Flamengo, Fluminense), elitistas, se recusavam a enfrentar analfabetos e isso era um problema para os players vascaínos. Paschoal, inclusive, teve de trocar em cartório o sobrenome, "Cinelli" para "Silva", de caligrafia mais fácil para o filho de italianos.