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2 de março de 2026


FLU NÃO ENGOLE SEU PASSADO RACISTA

No empate deste domingo (1x1), na Arena Maracanã, torcedores do Fluminense Football Club - fundado pelo filho mimado de um diplomata britânico – resolveram debochar dos vascaínos presentes. A pequena torcida do clube da zona sul – segundo pesquisas a 12ª maior do Brasil –, cuja história contém a mancha suja do racismo, levantou esta faixa: “O herói de vocês matou, escravizou e colonizou”. 

Os brancos da elite que lançaram esta provocação, talvez herdeiros de escravocratas, não foram impedidos pela Polícia Militar.

Durante décadas o Fluminense foi chamada de “time de veado” em coro no Maracanã. Hoje, homofobia é crime. É proibido. Vetado. Mas sua torcida – filhos da elite carioca - se julga no direito de ofender os vascaínos.

Clube preconceituoso desde a fundação, em 1902, não por acaso o primeiro jogador titular de cor negra só foi emplacar na segunda parte da década de 1930, com o profissionalismo.

Paulo César Caju quando era criança e jogava no Fluminense pode sentir na pele o racismo do clube, ao ser proibido de ingressar pela portaria social como seus colegas brancos (VIDEO).  

8 de maio de 2024



VASCO x FLA-FLU: QUESTÃO DE BERÇO

A origem dos clubes – na virada entre o século XIX e o século XX - que disputam a licitação do Maracanã (até 2044) explica a posição de cada um: a proposta do ‘Consórcio Maracanã Para Todos’ – do Vasco e da WTorre – é includente, popular; a do ‘Consórcio Fla-Flu’ elitizada, por contemplar os coirmãos da zona sul e só. Os vascaínos, desde 2013 – quando o estádio passou a ser gerido pelos rivais, na época, em parceria com a Odebrecht – são covardemente discriminados.

Querem separar a população em dois grupos.

Um com cidadania plena – os rubro-negros e tricolores - pode frequentar o Maracanã - o palco mais simbólico do futebol. O outro, o da torcida do Vasco – mais popular e muito superior em tamanho à torcida do Fluminense – é condenado a ser visitante em sua própria casa porque os usurpadores não tratam o estádio como bem público.

IDENTIDADES

O Flamengo é fundado a 17 de novembro de 1985. Logo, troca a “fundação oficial” para 15 de novembro, junto ao feriado da Proclamação da República. As cores mudam, em 1896, de azul e ouro – tecidos difíceis de encontrar - para preto e vermelho. O Vasco sempre foi de 21 de agosto de 1898. Na bandeira, o preto representa os mares nunca antes navegados, o fim do mundo e as mortes no caminho. A faixa branca é a rota do navegador, e a cruz a fé do povo português (o Flu imita o Fla: surge, em 1902, cinza e branco, e só depois adota o tricolor).

FUNDAÇÃO

Em 1895 numa reunião de jovens da burguesia – estudavam e se divertiam – no Largo do Machado, nasce o C.R. Flamengo, tendo como garagem um casarão na Praia do Russel, 22 (Praia do Flamengo), área nobre, vizinho ao Palácio do Catete, a residência do presidente da República. Um dos motivos é que, em 1894, o C.R. Botafogo tinha sido fundado e seus remadores cortejavam as moças do bairro Flamengo. Já o Vasco surge em 1898, em um sobrado alugado na Rua da Saúde, 127 (Gamboa), fundado por portugueses e descendentes, alguns donos de pequenos comércios e a grande maioria de assalariados em lojas no Centro, zona norte e subúrbios.

REALIDADES

Remadores do Flamengo viviam da mesada dos pais e, às vezes, usavam o píer da presidência da República para lançar os seus barcos na Baía de Guanabara. Já o primeiro presidente do Vasco renunciou em 1899, levando quase todos os barcos para fundar o C.R. Guanabara, em Botafogo.  

Enquanto nos clubes dos ricos da zona sul não era admissível o convívio com pobres, no Vasco, eles formavam a maioria. A elite também mantinha forte rejeição aos portugueses. Esses clubes faziam questão de se apresentarem como os que “reuniam os filhos das melhores famílias”, e cobravam altas mensalidades. O Vasco, não. Daí os associados terem recusado a transferência da sede para Botafogo, preferindo se reinventar na região portuária. 

VASCO: ORIGEM

Nei Lopes: “O Vasco nasceu no lugar e no momento em que se gestava o melhor da cultura carioca, com sua música, sua dança e sua religiosidade. Morava perto Hilário Jovino, o fundador do rancho carnavalesco, célula-mãe das escolas de samba; os pais de santo João Alabá e Cipriano Abedé, a partir dos quais se estabeleceram no Rio os candomblés da Bahia; Tia Perciliana, mãe de João da Baiana, um dos pais da MPB. (...) a convivência entre europeus e descendentes de africanos naquela região se deu sem maiores conflitos. Vem-nos daí a ideia de que por isso que a Cruz-de-malta pulsou e pulsa no peito de tantos sambistas, e a relação é enorme”.

FLA: ORIGEM

O jornalista João do Rio, em 1916, escreveu a respeito da representatividade social do rival: “Fazer sport há vinte anos ainda era uma extravagância. (...) Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias era um estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

FLU: ORIGEM

O Fluminense inaugura o foot-ball no Rio de Janeiro em 1902, dando ao esporte um perfil elitizado. O fundador e primeiro presidente foi Oscar Cox, filho de diplomata inglês, mas quem forjou a identidade tricolor foi o milionário Arnaldo Guinle, o presidente de 1916 a 1931 e de 1941 a 1943. Também presidiu a CBD de 1916 a 1920 e a AMEA em toda sua existência, entre 1924 e 1933. A Família Guinle lucrava com o Porto de Santos - era a dona do terreno do clube, do vizinho Palácio Guanabara e muito mais.

PIONEIRISMO

A partir dos clubes de remo nascem todos os outros. O pioneiro é o Grupo dos Mareantes, de 1851. A prefeitura do Distrito Federal, em 1905, inaugurou um pavilhão de ferro na Enseada de Botafogo, na recém-construída Avenida Beira-Mar. Apogeu: inglês como o foot-ball e acessível ao povo e à elite.

BOTA-ABAIXO

A multimilionária Família Guinle se beneficiou da Reforma Passos adquirindo terrenos antes ocupados por cortiços e casebres no Centro da cidade, conta Darcy Ribeiro. Revolta popular. Um projeto de cidade perverso era gestado. A nova zona sul recebe as melhorias que beneficiarão moradores dos palacetes de Laranjeiras, Flamengo e Botafogo. À população pobre, restaram os bairros da zona norte e subúrbios. Os clubes náuticos, como o Vasco, são despejados, e suas praias desaparecem aterradas: do Russel, da Ajuda, de Santa Luzia, de Dom Manuel, do Peixe, da Prainha, da Gamboa etc.

CARTOLA

O Vasco é o único dos “grandes” do Rio de Janeiro que já teve um presidente preto: Cândido José de Araújo, o Candinho, em 1904, antes da implantação do futebol, e 16 anos após a Abolição da Escravatura. O Fluminense – e o coirmão, o Flamengo – jamais tiveram. 

UNIDOS PARA SEMPRE

Por não praticarem os mesmos esportes, até 1911 havia sócios de ambos os clubes (Fla-Flu). Em 1902, flamenguistas - inclusive o seu presidente - assinaram a ata de fundação do Fluminense, na Rua Marquês de Abrantes, bairro Flamengo. De 1905 a 1906, tiveram o mesmo presidente: o inglês Francis Henry Walter. O Flu repassou ao Fla o terreno do Morro da Viúva, em 1935. O futebol rubro-negro nasceu na Rua Paysandu, terreno da família Guinle, tricolor. Ou seja, flamenguistas ajudaram a fundar o rival e tricolores criaram o futebol do Flamengo, capitaneados pelo traidor Alberto Borgerth, remador do Fla e player do Flu.

DEMOLIÇÕES

O Flamengo tinha sede e garagem num casarão em área nobre (hoje, Praia do Flamengo, 66) e sempre obteve favores públicos. O Vasco passou sufoco até a inauguração de São Januário, em 1927. A sede pioneira era um barracão na Ilha das Moças, na Gamboa. As primeiras sumiram: Ilha das Moças, aterrada; as do Largo da Imperatriz e Travessa Maia, demolidas na construção do Palácio Monroe. Por fim – com o estádio já de pé - a da Rua Santa Luzia caiu em 1942.

BACANAS

Sobre as condições de mobilidade urbana em 1917, João do Rio explicou: “A gente de Botafogo tem só de se dar com a gente de Botafogo [Laranjeiras\Flamengo] e a gente do subúrbio com a gente do subúrbio. As estações de trem da Central do Brasil têm contexto amplo, constatou Olavo Bilac, em A Notícia: “Cada uma tem o seu teatro, o seu parque, o seu cinematógrafo e o seu club”.

TORCIDA RIVAL: TEORIAS FAKE

A torcida do Flamengo cresceu com a FlaPress, com o profissionalismo em meados da década de 1930, pela visão de marketing do seu presidente Bastos Padilha. Antes, não. Há teorias sobre a origem da popularidade que camuflam o DNA elitizado. Ruy Castro: o rival já nasceu popular e a rivalidade com o Vasco – “time dos portugueses” – no remo a alavancou. Ocorre que o rubro-negro não tinha apelo popular e nem tampouco rivalidade com o Vasco no remo, dada a imensa superioridade dos vascaínos. Outra teoria delirante é da FlaPress, baseada em Mario Filho: os treinos na Rua Paysandu – área nobre - eram franqueados e os players corriam nas ruas... Ora, a torcida era a fina flor da sociedade, segundo A Gazeta de Notícias etc.

RACISMO INTIMIDA

Caso emblemático é o de Carlos Alberto, que em 1914 trocou o América pelo Fluminense (as maiores torcidas): num jogo em Campos Sales, ele passou tanto pó de arroz que ficou quase cinza. Da geral, os rubros o acusaram de fazê-lo para embranquecer a pele. Zombavam: “Pó de arroz! Pó de arroz!”. A acusação alastrou-se como insulto até virar, muito depois, motivo de orgulho dos tricolores, que reagiam chamando os americanos de “pó de mico” e os vascaínos na década seguinte de “pó da pérsia” (vermífugo). Carlos Alberto logo foi mandado embora: justa causa. Mario Filho: “O Fluminense (...) queria ser mais do que os outros, mais chique, mais elegante, mais aristocrático. O pó-de-arroz pegou feito visgo”.

TIME DOS MÉDICOS

Dos onze titulares do Flamengo em 1914, nove estudavam Medicina, um Direito e outro não estudava nada, mas era rico, do contrário não teria sido aceito no Fluminense e nem estaria em meio aos atletas rubro-negros. O futebol refletia a ordem social. Daí ser inconcebível a um pobre, semianalfabeto, competir esportivamente – ou mesmo conviver - com um futuro doutor.

ESPÍRITO DO TEMPO

Em 1916, um artigo na revista Sport retrata o sentimento dos rivais do Vasco, nas primeiras décadas do século XX: “(...) Frequentamos uma academia, temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval, jantamos no Rotisserie, visitamos as conferências literárias, vamos ao Five O’clock; mas quando nós resolvemos a praticar esporte às vezes somos obrigados a jogar com um operário, limador, mecânico, chofer e profissões que absolutamente não estão em relação ao meio onde vivemos. Nesse caso a prática torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão”.

LEI HOUR CONCOURS

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. Na era dourada, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Na impossibilidade de serem campeões de remo, em 1915 Flamengo, Botafogo e Guanabara aprovam, na FBSR, uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos, particularmente o Vasco, tricampeão.

GENTE FINA

No futebol, o Vasco estreou na terceira divisão da LMSA (futura LMDT, LCF e, atualmente, é a FERJ) e só chegou à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou no futebol - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) coirmão Fluminense.


IMAGEM - berço do Fluminense

11 de abril de 2024

         

     
   

FLA-FLU EXISTE PARA ATACAR O VASCO

O neologismo “Fla-Flu” surgiu em 1925 quando os jornais estamparam o caráter da Seleção Carioca dos técnicos Joaquim Guimarães, do Flamengo, e Chico Neto, do Fluminense só com os players dos seus clubes, brancos e endinheirados. Pior: a conquista do Campeonato Brasileiro iria consagrar a tese elitista-racial deles, e influenciar a CBD a só convocar brancos para o Campeonato Sul-Americano, em Buenos Aires. Três vascaínos foram excluídos: os analfabetos Paschoal e Torterolli e o goleiro, de cor preta, Nelson “Chofer” (na pele de um torcedor) – o titular em 1923, quando barrou Marcos, do Flu e Kuntz, do Fla. 

Tudo para que os brasileiros não fossem chamados de “macaquitos”, como dois anos antes.

Sobre Nelson "Chofer", era taxista e fazia ponto no Engenho de Dentro. 

Segundo o jornalista Mario Filho, na viagem de navio da Seleção Brasileira até Montevidéu, para o Campeonato Sul-Americano de 1923, Torterolli e Paschoal procuravam imitar os modos de Fortes, do Fluminense. “Ao fim do jantar chegou uma lavanda. Fortes, de brincadeira, fingiu que ia bebê-la e os dois beberam até não restar uma gota”. 

O fato serviu como argumento para a LMDT, segundo a qual seria conflituosa a relação entre os players “bacanas” e os do Vasco. Logo, a CBD iria a acolher a infâmia da liga carioca.

Não é incomum encontrar tricolores com simpatias pelo Flamengo e vice versa, como dois lados de uma só moeda.

Até 1911, havia sócios de ambos. Em 1902, alguns flamenguistas - inclusive o presidente, Virgílio Leite - assinaram a ata de fundação do Fluminense, na Rua Marquês de Abrantes, bairro Flamengo. Em 1905 e 1906, os coirmãos tiveram o mesmo presidente ao mesmo tempo: o ricaço inglês Francis Henry Walter – ele também defendeu os dois como atleta.

O Flu repassou ao Fla o terreno do Morro da Viúva, em 1935. O futebol rubro-negro nasceu na Rua Paysandu, num terreno da família Guinle, tricolor. Inclusive, lá o Flu disputou seu primeiro jogo. Ou seja, flamenguistas ajudaram a fundar o coirmão e tricolores criaram o futebol do Flamengo, capitaneados por Alberto Borgerth, remador do Fla e player do Flu.

O campo arrendado em 1915 pelo Flamengo, na Rua Paysandu, era vizinho ao estádio da Rua Guanabara (Laranjeiras), sendo o primeiro jogo, naturalmente, o confronto entre eles, com seus players e torcedores brancos.

PRECONCEITO

Em 1916, o Vasco estreou na terceira divisão da LMSA e só chegaria à primeira divisão em 1923. Diferentemente do Flamengo, que tinha dado os seus primeiros chutes quatro anos antes, em 1912, na mesma LMSA e diretamente na primeira divisão - graças à interferência do Fluminense, o dono da bola.

Em sua estreia na divisão principal, o Vasco conquistou o título de 1923. 

Alarmados e sem provar que os players do Vasco eram profissionais, Flamengo, Fluminense e outros abandonam a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA) – mais excludente – presidida pelo ricaço Arnaldo Guinle, presidente do Flu, e não convidam... O campeão!

Para filiar-se, além de menos peso nas votações, teria que eliminar doze atletas. Os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco só tinha o remo, assim, voltaria às origens no foot-ball, na companhia de Mangueira, Andarahy e Americano. 

Recusou, é claro, e os Camisas Negras foram bicampeões, em 1924, na liga abandonada pelos covardes.

O regulamento da AMEA, criada por Fla, Flu e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo, e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (soldado, marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.).

Ao se darem conta de que os públicos nos jogos dos Camisas Negras na LMDT, mesmo sem destaque nos jornais, eram superiores, a AMEA, através do Botafogo, convida o Vasco a se filiar, mesmo com o seu time de “analfabetos”, “pretos” e “trabalhadores”. Continuou proibido de jogar no estádio da Rua Moraes e Silva.

Em 1925, o Vasco sofria mandando jogos em Laranjeiras e na Rua Paysandu, pagando 10% da renda. No primeiro, os sócios ficavam atrás de Nelson Chofer ofendendo-o com palavrões racistas e xenófobos. O fidalgo dizia não ter culpa. Na campo do Flamengo, piorou: os flamenguistas, constatou Mario Filho, sentiam mais raiva dos vascaínos. Nova troca, para o Andarahy, mas já era tarde para ser tricampeão.

Os clubes da zona sul não reconheciam o Vasco – da zona portuária, com torcida mais popular – como um “grande” igual a eles. Foi em resposta a este preconceito que os vascaínos se uniram para viabilizar a construção do Estádio de São Januário, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).   

Jogadores e torcedores de Flamengo e Fluminense mantinham relações de amizade, se cruzavam no Restaurante Lamas, na Matriz da Glória, na Rua das Laranjeiras. Um só comportamento. “O Flamengo até poderia ter algum preto no remo ou no basquete, jamais no futebol. Os barcos ficam longe, e nas regatas nem é possível reparar a cor da pele dos remadores. No futebol, não”, explica o flamenguista Mario Filho.

Em 1934, o Flamengo protesta contra guarnição vascaína em uma regata e tem o inesperado apoio do Fluminense, que não pratica o remo, mas é filiado à Federação Brasileira das Sociedades de Remo (FBSR), gestora dos esportes aquáticos. Inconformado com a intromissão, o Vasco abandona a FBSR para fundar a Liga Carioca de Remo (LCR) e, também, rompe com a Liga Carioca de Futebol (LCF) com Bangu e São Cristóvão – na crise de 1924, estes ficaram com os ricos – para fundar, junto ao Botafogo, a Federação Metropolitana de Desportos (FMD), profissional e a única na cidade reconhecida pela CBD.

A aliança entre Flamengo e Fluminense é endossada pelo presidente rubro-negro Bastos Padilha. Após uma partida entre os coirmão, o Fla perdeu e parte da diretoria reclamou que as bolas não eram as oficiais. Exigia que Padilha protestasse, mas ele nada fez, porque defendia que a boa relação com Arnaldo Guinle era fundamental para o “projeto Fla-Flu”. Renunciou. Em dias, os revoltosos se acalmaram e o cartola retomou o posto.

FLAPRESS

Em 1935 e 1936, Flamengo e Fluminense estão na LCF; América, Botafogo e Vasco, na FMD, que tem os jogos de maior apelo. De acordo com Mario Filho e Bastos Padilha, as torcidas de Vasco e América eram as maiores da cidade.

Neste contexto de cisão, os coirmãos tinham claro o valor da imprensa na formação da opinião pública. O jornalismo esportivo na capital da República contava com o Rio Sportivo (1926), o Mundo Sportivo (1931) e o Jornal dos Sports (1931) — copia o italiano La Gazzetta dello Sport e o francês L’Auto, impresso em cor de rosa. Em 1936, o flamenguista Mário Filho o compra, com a ajuda de Roberto Marinho, flamenguista de O Globo – o investidor majoritário -, Arnaldo Guinle, presidente do Flu e Bastos Padilha, presidente do Fla.

Com a FlaPress nos primórdios, o Jornal dos Sports, apoiado pela Rádio Continental, começa a promover o “Duelo de Torcidas” nos Fla-Flus. A divulgação é maciça, inédita, na disputa pelas melhores rendas com o Vasco. No primeiro “duelo”, eles protestaram contra a CBD: os diretores de ambos os clubes se vestiram de branco, demostrando união. O presidente do Fla, Bastos Padilha, recebeu uma placa do amigo e presidente do Flu, Alaor Prata.  

A expressão “Fla-Flu”, enfim, é propagada no “Duelo de Torcidas”.

Nelson Rodrigues: “O Fla-Flu sem esta abreviação mágica existia desde 1911 ou 12. Até que Mário Filho mudou o nome (...) senhoras, que não sabiam nem quem era a bola, compareciam ao jogo, magnetizadas pelo mito”.

Tentavam manter o Vasco em plano secundário.

A FlaPress nas décadas de 1930 e 1940 – como a AMEA, com a réplica da Carta Histórica, de 1924 – tinha por meta afastá-lo das causas populares relacionando-o apenas aos portugueses, enquanto o Flamengo, com o seu DNA racista, passou a ser identificado como o verdadeiro clube popular. O Fluminense, sua antítese: o preferido dos ricos.

Mario Filho escreveu no Jornal dos Sports, em 1940: “Por que não se tenta apagar o ressentimento entre as torcidas de Vasco e Flamengo?”. Iniciou no Torneio Municipal [os times não atuavam em seus próprios estádios]: no Flu x Botafogo e no Flu x São Cristóvão, em São Januário, os vascaínos aplaudiram os adversários do time tricolor. Mas, quando o Vasco foi à Gávea encarar o Flu, os rubro-negros vaiaram os Camisas Negras. “Desde então, os torcedores do Vasco se veem obrigados a vaiar o Flamengo e vice-versa”.

O “duelo de torcidas” foi relançado com a inauguração do Maracanã. Outra vez, em 1951, a FlaPress tenta fazer do Fla-Flu o clássico mais popular, mas é impossível. Badalado a semana inteira, levou menos público do que o Vasco x Fla (1x2) - como quase sempre –, neste jogo, o rival quebraria a escrita de não bater o Expresso da Vitória desde a final de 1944.

Tempos depois, na decisão do Campeonato Carioca de 1974 – Flamengo 0x0 Vasco - o ex-presidente da República, ditador e flamenguista Emílio Garrastazu Medici encontrava-se na tribuna de honra. Já o presidente do Flamengo, Hélio Mauricio, cardíaco, ouvia pelo rádio, na sede do Fluminense, em Laranjeiras, na companhia do presidente tricolor, Jorge Frias, e correu para o Maracanã após o apito final. 

Na semana seguinte, na eleição realizada na Gávea, Hélio Maurício seria reeleito — com o voto de um associado ilustre: Médici.

Em 1986, o flamenguista Marcio Braga ajudou a derrotar o vascaíno Medrado Dias na eleição à presidência da CBF - a vida inteira combateu o Vasco e teve Eurico Miranda como desafeto. Já a sua relação com os cartolas do coirmão (e do Botafogo) sempre foi amistosa. Ele e Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense, foram amigos de infância em Copacabana.

EURICO

Frustrados com o bi vascaíno em 1993 e com a boa relação entre Eurico Miranda e Eduardo Vianna, o presidente da FERJ, os coirmãos cooptam o Botafogo na “Liga Carioca”. Querem o Campeonato Carioca sem vínculo com a FERJ, da qual pretendiam se desfiliar – como em 1924... –, mas recuam dissuadidos pela FIFA. A FlaPress os apoia e abre espaços. Um político, em especial, surfa naquela onda de moralismo barato: o então deputado estadual Sergio Cabral Filho (PMDB).

A “Liga Carioca” é ressuscitada em 1997, como sempre para combater o Vasco, por Kleber Leite (Fla), Álvaro Barcellos (Flu) e José Rolim (Bota), presidida por Francisco Horta (ex-Fla-Flu). Esses cartolas entraram em transe profundo quando Eurico se baseou no regulamento para adiar jogos do Campeonato Carioca, se valendo de que o time vascaíno tinha quatro atletas em Seleções Brasileiras (Germano, Edmundo, Felipe e Pedrinho).

Em 1997 e 1998, os membros da “liga”, por chilique, perderam jogos por W.O.

Passaram anos tentando derrubar Eduardo Vianna, o “Caixa d’Água”, da presidência da FERJ e só conseguiram quando este morreu, em 2006. Rubens Lopes assumiu em 2007. Rubinho – até hoje o presidente – para se eternizar tornou-se um aliado dos herdeiros daqueles racistas da AMEA.

FATALIDADES

No primeiro rebaixamento do Vasco à Série B, em 2008, na última rodada do Brasileirão era preciso ganhar do Vitória e torcer por uma combinação de resultados. No Atlético-PR 5x3 Flamengo, a vitória do rival ajudaria, e um empate lhe daria uma vaga na Libertadores. O primeiro gol paranaense foi em uma cabeçada fortíssima de Toró – cria do Flu – no primeiro pau, sem chance de defesa. Gol-contra! O Fla era presa fácil – talvez, devido à pressão da torcida, que, na véspera, tinha pichado os muros da Gávea com ameaças aos jogadores e a Marcio Braga (“Se ganhar morre”) se o Vasco fosse... ajudado.

Os coirmãos tabelaram em 2013, quando a Portuguesa impediu a queda de Flamengo ou Fluminense à Série B do Brasileirão.  Na última rodada, a Lusa lançou em campo - no final do segundo tempo - Héverton, irregular - caso inédito: nem o atleta, nem o técnico, diretor ou imprensa se deram conta da infração. Nesta última rodada, dois jogadores irregulares é outro absurdo. Para o Ministério Público-SP, funcionários da Lusa foram subornados. Esta perdeu quatro pontos e foi rebaixada no lugar do Fla, que, um dia antes, cometera o mesmo erro escalando André Santos contra o Cruzeiro. Se nada tivesse ocorrido, o rebaixado seria o Flu – já anunciado nos jornais. Dias depois, foram confirmadas as duas escalações irregulares, e os tricolores festejaram na porta do STJD mais uma virada de mesa.

Antes deste jogo com o Cruzeiro, parte da FlaPress anunciou que André Santos não poderia ser escalado. Pois bem: ele foi e, depois, não se viu nada, em qualquer mídia, sobre o tema. O silêncio só iria acabar quando constatou-se que a Portuguesa cometera – um dia depois – igual infração.

Em 2015, o técnico Vanderlei Luxemburgo, do Flamengo, disse em uma entrevista que a federação devia “levar porrada”. É suspenso dois jogos pelo TJD, inclusive de um Fla-Flu. O Fluminense, solidário, se uniu em protesto contra os juízes da FERJ. Veja que esquisito: os jogadores do time mais favorecido (Fla) do Brasil e do dileto coirmão (Flu), lado a lado, com as bocas cobertas por esparadrapos... em nome da moral! O Flamengo, campeão carioca roubado em 2014, ameaçava até não disputar em 2016.

MARACANÃ

Já governador, Sérgio Cabral anunciou, em 2008, que o Maracanã iria ser privatizado após as obras de “reforma” para a Copa de 2014. Flamengo, Fluminense e CBF tramaram a ocupação, com esta anunciando 70% dos jogos da Seleção Brasileira no estádio. Cinco anos depois, em 2013, os concorrentes da licitação para gerir a “Arena Maracanã” por 35 anos eram o Consórcio Maracanã S/A — vencedor de véspera, imediatamente sublocou a gestão aos coirmãos — e o Complexo Esportivo e Cultural do Rio.

O propósito dos coirmãos é sabotar o Vasco, tomando o estádio para si. A primeira exclusão foi em relação à torcida vascaína, que em 2013 deixou de ter prioridade no lado direito da tribuna para uma torcida menor que a sua.                           

A demolição do velho Maracanã foi uma bênção para Flamengo e Fluminense: ganharam uma nova arena de R$ 1,2 bilhão, sem gastar um tostão. Muito lucrativa. Mentira oficial: dava prejuízo antes da privatização.

A desculpa dos rivais para terem recusado a gestão compartilhada com o Vasco é que o gramado seria danificado pelo excesso de jogos. É chocante a discriminação aos vascaínos, tratando-os – com a conivência da FlaPress - sem os mesmos direitos ao patrimônio público. Alegaram que com mais de 70 jogos por temporada a grama seria prejudicada – na cabeça deles, é isso: a graminha tem mais valor que o futuro do Vasco.

Incluindo preliminares e outros eventos, o Maracanã abrigou 160 jogos em 1964; 157 em 1965; 211 em 1970; 114 em 1980. Pelé e Garrincha não reclamavam.

Os coirmãos também se recusam, covardemente, a liberar o Maracanã para jogos do Vasco - só apelando à Justiça, algo recorrente nos últimos anos, e sempre com sucesso. O disparate é tanto que contraria itens do contrato de concessão provisória que os enriquece.

Antes de buscar parceiros para a licitação, o Vasco tentou se acertar com Flamengo e Fluminense. Recusaram, é claro. Em O Globo, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, argumentou que Alexandre Campello, ex-presidente do Vasco, em 2019 – não quis a gestão PROVISÓRIA do estádio – e, assim, ele encerrou o assunto para toda a eternidade.

A soberba de Landim, executivo nas firmas do ladrão Eike Batista, é um traço da elite rubro-negra: 

“Ninguém aqui está privilegiando ninguém. Não estão entregando a ninguém. O Vasco teve chance de se associar ao Flamengo e ao Fluminense, mas no início de todo esse processo preferiu não se juntar”.

NOTA OFICIAL

“O Vasco da Gama se vê obrigado a esclarecer informações dadas pelo presidente do CR Flamengo, Rodolfo Landim: 1. Não é verdade que o Flamengo ofereceu ao Vasco a oportunidade de participar da gestão do Maracanã neste processo licitatório. O dirigente usa o desinteresse de outra gestão, em 2019, em uma outorga precária de seis meses, para concluir que não queremos administrá-lo. Não diz que, a partir do início de 2021, procuramos CR Flamengo e Fluminense FC com o objetivo de participar na gestão, não sendo possível. OS RIVAIS TÊM ACORDO MÚTUO DE EXCLUSIVIDADE NA GESTÃO DO ESTÁDIO PÚBLICO. 2. Ao criarmos o Consórcio Maracanã para Todos, trouxemos dois gigantes da indústria de administração de arenas. A narrativa de que o Vasco “entrou para melar” é tão surreal que não vale comentário. 3. O Vasco aguarda a nova publicação do Edital de Licitação, uma vez que o processo foi paralisado pelo TCE um dia antes do prazo de entrega das propostas. 4A narrativa de que a presença das empresas parceiras do Vasco deixará o futebol em segundo plano é mentira. 5O Vasco é um clube de futebol com 125 anos de história, grande parte construída no Maracanã. O futebol é prioridade. O VASCO REITERA SEU COMPROMISSO DE ABRIR O MARACANÃ A TODOS OS CLUBES E SUAS TORCIDAS, EM CONDIÇÕES IGUAIS. INFELIZMENTE A RECÍPROCA NÃO ESTÁ SENDO VERDADEIRA. O CR Flamengo negou duas vezes em 2022 o direito dos nossos torcedores verem seu time no Maracanã, com justificativas implausíveis. Tivemos nosso pleito acatado por duas instâncias do Judiciário. 6Ao contrário do que faz parecer, o CR Flamengo tem constantemente infringido cláusulas da Permissão Temporária de Uso do Maracanã. Todos devem utilizá-lo sob as mesmas condições. O Fluminense FC pagava R$ 90 mil por jogo. O Vasco, R$ 250 mil, além de não repassarem a receita de bares e restaurantes, quebrando a igualdade de tratamento. Censuraram a exibição de mensagem institucional: "Desde 1898 o legítimo Club do Povo – Respeito Igualdade Inclusão". 7. Ao contrário do que foi declarado, para participar da gestão do Maracanã oferecemos ao Fluminense FC mandar alguns jogos em São Januário. 8O Vasco da Gama reitera sua solicitação de que o certame definitivo aconteça o mais rápido possível, com regras claras e transparentes e tenha como norte o melhor para o Estado do Rio de Janeiro, todos os seus clubes e torcedores, sem influências. Não temos dúvidas de que o Consórcio Maracanã para Todos é o mais bem preparado e que, se o resultado for técnico, será o vencedor. 9. Queremos tranquilizar a imensa torcida vascaína: o Vasco da Gama e a 777 Partners utilizarão todos os mecanismos ao nosso alcance para que nossos interesses sejam preservados”.

7 de abril de 2024

RACISMO: O CENTENÁRIO DA RESPOSTA HISTÓRICA



Há um século, no dia 7 de abril de 1924, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, remeteu ao presidente da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (AMEA) e do Fluminense, Arnaldo Guinle, uma carta – a Resposta Histórica – que rompeu a estrutura do foot-ball brasileiro. Através dela, o clube abria mão de participar do campeonato organizado pela liga dos “grandes”, com seus players e torcedores brancos. Isto porque se viu forçado a excluir 12 jogadores – a maioria de pobres e negros. Além do mais, os clubes da primeira divisão eram multiesportivos. O Vasco – campeão carioca de 1923! - só tinha o remo e deveria ser rebaixado, com Mangueira e Andarahy...

Em sua estreia na primeira divisão, em 1923, o Vasco conquistou o título com jogadores das classes populares. Não foi o primeiro a ter pobres ou pretos, mas foi o primeiro a esmagar os que se julgavam a fina flor da sociedade.

Naqueles tempos de racismo e xenofobia na capital da República – exacerbados, após os festejos pelo Centenário da Independência do Brasil (1922) - a proeza dos Camisas Negras foi tão marcante quanto a do preto Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burns, em 1908. Antes, o boxe era segregado no Estados Unidos. Ou a de Jessé Owens calando o Estádio Olímpico de Berlim, repleto de nazistas, em 1936.

Enquanto se derrubava um símbolo da cidade – o Morro do Castelo – pobre, luso-africana, para dar lugar ao “futuro”, surgia um time de foot-ball – o sport da modernidade – exatamente com a imagem que a elite pretendia sepultar... O Vasco expressava o triunfo da associação trem-subúrbio-pobre sobre carro importado-zona sul- vida moderna.

O regulamento da AMEA, criada por Flamengo, Fluminense e outros, não escancarava a proibição aos players de cor preta, mas incluía artigos que inviabilizavam a presença deles: vivia-se o amadorismo e os times deveriam ser formados por estudantes ou trabalhadores alfabetizados que não exercessem profissão “subalterna” (marinheiro, estivador, barbeiro, garçom etc.) ou passível de receber gorjetas. 

A Resposta Histórica se transformou em marca do Vasco, eternizando-o como defensor dos valores democráticos, da inclusão social e contra o racismo. Como observa o geógrafo Leandro Fontes, tornou público, com rara precisão e originalidade, a natureza antagônica do Vasco e dos fundadores da AMEA.

O Vasco forçou a integração dos desportistas negros e operários, algo inconcebível para os rivais naquela época. Exemplo disso foi a eleição para presidente, em 1904, do funcionário da Central do Brasil, Candido José de Araújo - o primeiro presidente negro entre os “grandes”. 

ANTECEDENTES

A Liga Metropolitana de Football (LMF) promoveu o primeiro Campeonato Carioca, em 1906. O presidente da LMF era Francis Henry Walter, um inglês ricaço, dono da firma de comércio exterior Walter Brothers & Company. Presidente do Fluminense de 1903 até 1908, ele também foi sócio, atleta e presidente do Flamengo, em 1905-1906, tendo sido, portanto, o mandatário dos coirmãos Fla-Flu ao mesmo tempo.

O glamour não resistiu a Bangu. Dos sete mil habitantes, 1.417 do bairro da zona norte batiam ponto na Companhia Progresso Industrial do Brasil. O Paiz: “torcem fervorosamente”. Surpresos com a recepção que tiveram, os “grandes” desistiram da LMF para fundar a Liga Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA), presidida, é claro, por Francis Henry Walter.

Regulamento: “A directoria da Liga resolveu, por unanimidade de votos, que não sejam registrados, como amadores, as PESSOAS DE CÔR. (...)” - 22 de maio de 1907. 

REGATAS

Sob a influência de Botafogo, Flamengo e Guanabara, a Federação Brasileira das Sociedades do Remo (FBSR) resolveu pressionar o Vasco a partir de 1904.

Com as guarnições vascaínas formadas por imigrantes portugueses e brasileiros pobres, empregados no comércio, a FBSR tentou proibir - sem sucesso, devido à intervenção do Vasco -, que os remadores trabalhassem em hotéis, botequins, cafés, quiosques, armazéns de secos e molhados, cervejarias, confeitarias, charutarias, bilhares, casas de leite, sorvetes e bebidas, casas de barbeiro e cabeleireiro, agências de locação de criados ou bilhetes de loterias etc.

Até meados da década de 1910, o futebol era aos sábados para não competir com as regatas. 

Na era dourada do remo, de 1989 a 1914, dos 17 campeonatos os clubes do Centro levaram vantagem, com cinco títulos do Vasco (1905/06/12/13/14), quatro do Natação e Regatas (1902/07/10/11), dois do Boqueirão (1901/03) e um do Internacional (1909). O Gragoatá, de Niterói, ganhou quatro (1898/00/04/08) e o Botafogo, da zona sul, um, em 1899.

Em 1914, alegando que Claudionor Provenzano não era amador, a FBSR o elimina, mas o Vasco reverte a decisão. Claudionor não tinha a boa vida dos remadores dos rivais e recebia ajuda de custo. No fundo, uma reação da elite – no ano seguinte, é baixada uma das leis mais antiesportivas do mundo, a “Lei Hour Concours”, segundo a qual são excluídos da prova que decide o campeonato (yole-8) quaisquer remadores com dois ou mais títulos. Só afetou os vitoriosos: naturalmente o Vasco, tricampeão.

ENTRELINHAS

A LMF foi dissolvida no final de 1907, por questões esportivas envolvendo Fluminense e Botafogo, mas quase nada mudou com a inauguração da Liga Metropolitana de Sports Atheticos (LMSA): players de cor preta e brancos pobres continuavam preteridos. As invés de proibirem de forma direta, os passam a se utilizar dos estatutos, graças a regras que davam margem para interpretações de uma comissão de sindicância.

Em 1917, a LMSA vira Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e o estatuto apresenta uma novidade para ajudar o trabalho da comissão de sindicância: o analfabetismo torna-se um quesito para impedir a entrada ou excluir jogadores. No início do século XX, a maior parte da população brasileira era analfabeta, especialmente os de pele preta.

PRIMEIROS CHUTES

O Vasco institui o seu departamento de futebol em 1916. Estreia na terceira divisão da LMSA e só chega à primeira divisão em 1923. Diferente do Flamengo, que estreou - quatro anos antes, em 1912 - na mesma LMSA, diretamente na primeira divisão - graças à intervenção do poderoso (na época) Fluminense.

Enquanto a principal liga – a LMDT - era controlada pelos “grandes”, havia outras, como a Associação Athletica Suburbana e a Liga Suburbana de Football. Jogos no campo do Jardim Botânico reuniam multidões. Foi neste celeiro que o Vasco montou o seu time – o critério de escolha era ser bom de bola, seja qual fosse a cor, a etnia ou a condição financeira.

Inclusão social que acontecia desde sempre, no remo.

O Vasco da Rua Santa Luzia abria suas portas aos jogadores dos clubes pequenos e agremiações dos subúrbios, e, a cada ano, os Camisas Negras se qualificavam. Em 1921, o clube alugou o campo da Rua Morais e Silva, na Tijuca, ao Sport Club Rio de Janeiro, para treinos e jogos.

SEGUNDA DIVISÃO

O ano de 1922 marcou o Centenário da Independência do Brasil, tempo em que a intelectualidade e mesmo o Estado pregavam a teoria racial do embranquecimento da sociedade. Crescia o preconceito contra imigrantes portugueses - em sua maioria, pobres e de baixa instrução: os vascaínos... Foi neste cenário que o Vasco – com um time repleto de players negros e pobres – conquistou o título carioca da segunda divisão.

Para subir à primeira divisão, o campeão da segunda (Vasco) teria de vencer o último da primeira (São Cristóvão). A 5 de novembro de 1922, o jogo ficou no 0x0, o que provocava a realização de um tira-teima.

Uma questão atravessou o campeonato: a LMDT recebera denúncia de que Leitão, do Vasco, era analfabeto e sua inscrição estaria irregular. Ele foi convocado a escrever uma carta - diante dos cartolas. Ao fim, o Vasco perdeu os pontos do 8x3 no Carioca F.C. e isso lhe tirava o título.

Leitão enviou uma carta à liga solicitando outra prova, a fim de comprovar não ser analfabeto. Os elitistas mal sabiam que o player tivera aulas de Língua Portuguesa. A imprensa se posicionou a favor do Vasco.

Depois de muita briga, a LMDT resolve não organizar o jogo-desempate, decreta o América campeão do Rio de Janeiro, não rebaixa o São Cristóvão e o Vasco obtém o acesso à primeira divisão.

ALFABETIZAÇÃO

Logo em sua estreia na primeira  divisão, o Vasco conquista o título de campeão carioca de 1923. Em campo, com uma campanha avassaladora. Fora de campo, graças ao associado Custódio Moura. Bibliotecário do clube, ele  ensinava, de graça, os jogadores a ler e a escrever. A LMDT perseguia os vascaínos por causa do analfabetismo e seus cartolas frustraram-se quando os players, mesmo que sem boa ortografia, escreveram os dados solicitados e o pedido de inscrição.

No primeiro Clássico dos Milhões, Vasco 3x1, de virada, na Rua Paysandu, o Flamengo tentou - sem sucesso - anular o jogo na LMDT sob a alegação de que o rival teria escalado um analfabeto, em condição irregular. 

O Correio da Manhã toma partido do time da zona sul:

"Vai ser levantada hoje, no Conselho da Primeira Divisão, a questão da legalidade do registro do jogador do Vasco da Gama, João Baptista Soares, o Nicolino, que jogou contra o C.R. Flamengo. Segundo se diz, esse jogador não tinha o prazo de inscrição necessário, por isso que, tendo sido cancelado o seu registro por analfabetismo, requereu exame de suficiência, o qual provou saber ler. A data válida é a do exame de suficiência e, segundo ela, o Vasco não o podia ter incluído no team".  

REVOLTA DAS ELITES

Após a conquista do título de 1923 pelos Camisas Negras, os clubes da elite rompem com a LMDT e criam a Associação Metropolitana de Esportes Atheticos (AMEA), cuja comissão organizadora trabalhava na sede do Fluminense. Fundadores: América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e o Bangu. O Vasco, então o campeão, com a maior torcida – e as maiores rendas – foi sumariamente excluído.

A comissão na AMEA se reuniu a 30 de março de 1924 e decidiu solicitar que o Vasco excluísse 12 de seus jogadores. O objetivo era impedi-lo de ser campeão com jogadores das camadas populares. O presidente do Vasco, José Augusto Prestes, ainda participou de uma reunião com a comissão organizadora, em uma última tentativa para dissolver o impasse.

Deu errado. No dia seguinte, a AMEA fez publicar nos jornais as resoluções que colocavam o Vasco em desvantagem. Queriam-no sem os pretos e pobres, em posição secundária. A 7 de abril de 1924, com o apoio unânime da diretoria,  José Augusto Prestes assinou o Ofício n.º 261 - a “Resposta Histórica”.

O Clube desistia de fazer parte da AMEA e ficaria com seus jogadores.

SÃO JANUÁRIO

Vasco e Flamengo já tinham seus terrenos – um comprado (665.895 contos de réis por 65.445m quadrados, em São Cristóvão); o outro, invadido. A alegação de que o Vasco não estava à altura dos “grandes” por não ter um estádio levou os vascaínos a inaugurarem São Januário, em 1926, o maior da América do Sul (até 1930), do Brasil (até 1939) e do Rio (até 1950).

Definitivamente, o clube mudava de endereço, do Centro da cidade para a zona norte. 

A RESPOSTA HISTÓRICA NOS TRAÇOS DE ZIRALDO


MISSIVA SUBVERSIVA: A RÉPLICA DO PLAYBOY

A RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924. Ofício nr. 261 Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle (FOTO) M. D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). 

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número de nossos associados. Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a deve aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consórcios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923. São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. Nesses termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA. Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V. Exa. At. Vnr. Obrigado (a) Dr. José Augusto Prestes. Presidente.


RÉPLICA À RESPOSTA HISTÓRICA

Rio de Janeiro, 17 de abril de 1924. Exmo. Sr. José Augusto Prestes, 

Accusando o recebimento do officio desse club, datado de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], que se nos chegou às mãos no dia 11, prevalecemo-nos desta opportunidade para fazer algumas considerações sobre o que ali se diz a respeito da primeira e única entrevista que tivemos com V. Ex. Com referencia ao primeiro paragrapho, devo dizer que as resoluções divulgadas pela imprensa não podiam ter sido levadas ao vosso conhecimento pela leitura de jornaes, porquanto, na entrevista acima alludida, tivemos occasião de lêr integralmente o documento que foi posteriormente publicado, depois do que, demos sobre elle, todas as explicações necessárias. Não houve, portanto, como parece se inferir desta parte do vosso officio, sonegação de informações que uma vez conhecidas pudessem modificar a attitude do Club de Regatas Vasco da Gama. Quanto ao segundo paragrapho, cumpre-me observar que a organização da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos já era conhecida de V. Ex., antes do pedido de filiação desse club, datado de 15 de março ultimo, porquanto os presentes estatutos são, por assim dizer, os mesmos que foram apresentados à Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, dos quaes V. Ex. tomou conhecimento, por isso sobre elle exerceu a sua critica no seio daquella instituição. Ora, já nesse projecto os direitos dos clubs, actualmente fundadores da A. M. E. A. não eram os mesmos concedidos ao club por V. Ex. dirigido. Por esta razão, foi com surpresa que lemos o 2o paragrapho do referido officio, cujo conceito se nos afigura sobremodo tardio. Quanto ao 3o paragrapho, o Club de Regatas Vasco da Gama labora em evidente erro, porquanto a Commissão Organizadora nunca poderia ter negado a quem quer que fosse o direito de defesa e isto mesmo foi declarado a V. Ex. pelo signatário do presente officio. Declaramos então que uma vez filiado, o Club de Regatas Vasco da Gama entraria com um novo officio, demonstrando satisfazerem, os seus jogadores, a todas as condições legaes do amadorismo e que, uma vez provada a improcedencia da syndicancia feita pela A. M. E. A., as respectivas inscripções seriam concedidas. Dissemos mais, que se havia, naquelle momento, discrepancias entre as informações fornecidas por esse club e a syndicancia por nós realizada, a responsabilidade dahi decorrente recaia exclusivamente sobre o Club de Regatas Vasco da Gama, e que, como o mesmo acontecia aos demais clubs, tonava-se impossivel discutirmos todos esses casos particulares naquelle momento, dada a exiguidade de tempo que nos separava do inicio dos campeonato officiaes da actual temporada sportiva. Achamos, portanto, que melhor seria organizar a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos para em seguida tratarmos desses casos particulares. Finalmente, dissemos a V. Ex. que embora estivessemos promptos a attender aos reclamos do vosso club a este respeito, alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular. A isto retorquiu V. Ex. não ser possivel, visto como o regimen de trabalho pesado do commercio portuguez não permittia que os seus empregados deixassem as suas occupações para se entregar ao preparo indispensavel aos jogos dos campeonatos officiaes da A. M. E. A. Eis porque, Sr. presidente, tomando conhecimento do officio de V. Ex., de 9 do corrente [a data correta é 7/4/1924], lastimamos que a boa acolhida que mereceram os nossos conceitos por parte de V. Ex. não tivessem se traduzido posteriormente numa acção de solidariedade do vosso club, para com aquelles que souberam, nas primeiras horas de actividade nos sports terrestres desse valoroso gremio, estender-lhe a mão para, à sombra desta boa vontade, sympathia e solicitude, crescer na sua estima e consideração. Permitta V. Ex., sem outro motivo, que me subscreva com toda a consideração e estima, o criado, attento e obrigado. Arnaldo Guinle, presidente da Comissão Organizadora.

PRECONCEITO EXPLÍCITO

(...) alimentavamos a esperança de que, para o futuro, elle [o Vasco da Gama] fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, porquanto ao nosso ver, não havia em nosso meio outra colonia capaz de apresentar melhores elementos que a portugueza para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades desta nobre raça secular (Ofício da AMEA em réplica à Resposta Histórica, de 17 de abril de 1924).

Havia o interesse dos cartolas da AMEA que o Vasco formasse times só com portugueses, ao estilo do Luzitania S.C. Assim, o embate que eles sonhavam contra os “grandes” da época (só tinham jogadores brancos), em uma concepção racialista, seria um confronto de raças: “portuguesa” x “brasileira”.

Além disso, o documento da AMEA expõe o desejo de colocar o Vasco como um clube exclusivo de portugueses, sem os negros, e o interesse dos dirigentes da nova liga em estigmatizá-lo como um pária estrangeiro, que atuava contra os “legítimos clubes brasileiros”.

Logo o Vasco da Gama! O mais brasileiro dos “grandes” do Rio de Janeiro, aquele que melhor representava – e ainda representa - a diversidade da população.