ATLETAS DO FLU: 100 ANOS DE PRECONCEITO
A covardia de André, o Soberbo, contra Rayan, reverberada pelo “rival” em suas redes sociais um ano depois, não é novidade: outro jogador branco do Fluminense já tentou humilhar jogadores vascaínos pretos e\ou pobres um século antes do episódio “Valkimar”, tendo em 1923 como protagonista o meio-campo Fortes.
Na época a Seleção Brasileira só tinha jogador branco e endinheirado (classe social era importante). Botafogo, Flamengo e Fluminense também. Até o presidente da República, Epitácio Pessoa, recomendou que a CBD evitasse a convocação de players mestiços ou pretos porque segundo ele pegava mal no exterior.
Racismo institucional.
O problema é que o Brasil só dos brancos entrava pelo cano e a CDB exigiu do técnico Chico Neto (também do Fluminense) a convocação de jogadores pobres e não brancos para o Campeonato Sul Americano de 1923 – três do Vasco na lista: Nelson Chofer, Torterolli e Paschoal. A AMEA (racista, controlada por Fla\Flu, precursora da atual FERJ) era explicitamente favorável à discriminação.
Quem relata é o jornalista Mario Filho, no livro O negro no futebol brasileiro:
“Durante a viagem no luxuoso navio até Montevidéu, Nelson, Torteroli, Paschoal, e outros desacostumados a ocasiões sociais mais refinadas, como Soda, Nesi e Amaro, observam como se comporta o elegante Fortes, do Fluminense, durante as refeições, e procuram imita-lo. Então, ao fim do jantar chega a lavanda e Fortes, de brincadeira, finge que vai bebê-la e todos bebem até não restar uma gota de lavanda. Este fato repercutiu e serviu de arma para a AMEA. Para ela, ficava claro que a relação entre jogadores como Fortes, do Fluminense e os do Vasco era conflituosa, e que estes não eram qualificados a representar o Brasil no exterior. A CBD acabou influenciada pela propaganda feita pela AMEA”.
Nelson Chofer (FOTO) foi o primeiro goleiro negro da Seleção Brasileira. Também o primeiro atleta negro garoto-propaganda. Segundo O Paiz, ele teve ótimo desempenho apesar de mais um fracasso do time no Sul Americano. Nunca mais foi convocado.
Tricampeão da Liga Suburbana pelo Engenho de Dentro, Nelson Chofer foi para o Vasco em 1919 e teve que mudar de profissão. A AMEA considerava chofer de praça uma profissão indigna para a prática do foot-ball – o esporte era amador – e ele, então, passou a trabalhar de balconista na chapelaria de um vascaíno.
Pelo clube jogou até 1927 (192 partidas). Em 1925, quando o Vasco não tinha estádio, jogava de aluguel em Laranjeiras ou na Gávea, Nelson Chofer passou sufoco: os sócios do Fluminense e do Flamengo (brancos e ricos consumidores de lavanda) iam para trás da baliza insultá-lo com racismo e atirar-lhe pedrinhas. Só foi ter paz quando o time passou a mandar seus jogos no Andaraí.

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