VASCAÍNOS HERDARAM O PRECONCEITO CONTRA AS TORCIDAS DOS 'TIMES DE FÁBRICA'
Nas primeiras décadas do
século XX, o foot-ball era coisa de
bacana – o pioneiro é o Fluminense, de 1902 –, e os clubes fundados na zona sul
(exceção ao América F.C.), pelos filhos da elite que emergia na
recém-proclamada República, logo se organizaram para monopolizar o esporte. Os seus
torcedores – brancos e de bons modos; a fina flor – se assustavam com os
adeptos dos “times de fábrica”, vistos como desordeiros. A maioria desses times
não resistiu à profissionalização (anos 30). A má fama das plateias
rompeu o tempo, transfigurada para as torcidas dos “times de
subúrbio” – eram várias; hoje, são os vascaínos.
O primeiro encontro entre players e torcedores dos “times da
elite” e dos “times de fábrica”, no Bangu x Fluminense, pelo Campeonato Carioca
de 1906, foi tão impactante que a recém-criada Liga Metropolitana de Foot-Ball
(LMF) seria dissolvida para que surgisse no seu lugar a Associação Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA).
Regulamento: “A directoria da
Liga resolveu, por unanimidade de votos, que não sejam registrados, como
amadores, as PESSOAS DE CÔR. (...)” - 22 de maio de 1907.
Dos sete mil habitantes de Bangu, 1.417
batiam ponto na Companhia Progresso Industrial do Brasil. O Paiz: “torcem fervorosamente pelo time da casa”.
Em 1918, Bangu,
Carioca F.C., Andarahy e Mavilis eram os “times de fábrica” (ou “operários”) — com as torcidas mais vibrantes da cidade. Os
jornais – não havia rádio, TV, e internet nem em delírio – as classificavam como
“indisciplinados e agressivos batalhões”. Correio
na Manhã: “O foot-bal ontem, no Andarahy, acabou em pao”. Às vezes, os fãs
do Mavilis agrediam até os juízes. “Brigaram com torcedores do Confiança e do
Engenho de Dentro”, contou O Imparcial.
Sobre as condições de
mobilidade urbana, João do Rio explicou: “A gente de Botafogo tem só de se dar
com a gente de Botafogo [Laranjeiras\Flamengo] e a gente do subúrbio com a
gente do subúrbio. As estações de trem da Central do Brasil têm contexto amplo,
constatou Olavo Bilac, em A Notícia:
“Cada uma tem o seu teatro, o seu parque, o seu cinematógrafo e o seu club”.
A
expressão “torcida organizada” nem existia, mas, entre 1917 e 1922, com o Vasco
nas segunda e terceira divisões, o time era seguido pelo Grupo do lasca o
pau. O português José Paradantas era o líder. O jornalista
Álvaro do Nascimento conta, no Jornal dos
Sports: “(...) com sol ou chuva, nos campos suburbanos, constituíam a policia de
choque a dar garantia e segurança a ‘nossas’ representações (time e torcida)”.
Há
noticias sobre a rivalidade entre torcedores do Vasco e do Vila Isabel na
segunda divisão: o pau cantou em 1923, com direito a tiros. Os periódicos
registravam brigas, como esta: um torcedor do América e outro do Fluminense
tomavam caldo de cana, na Praça XI, quando um esfaqueou o outro.
Na
revista teatral É da fuzarca, um exemplo
do preconceito: “Futebol é um esporte que provoca sururu/ Eu sou lá da zona
norte e torcida do Bangu”.
Antes do Flamengo 1x2 Vasco, na Rua Paysandu,
em 1928, o Diário Carioca produziu um
editorial, no qual escancarava o seu preconceito contra os players e a torcida
vascaína, acusando-os de arruaceiros e que a força policial deveria proteger os
rubro-negros:
“(...) Quanto
às desordens, que os adeptos do Vasco anunciaram, podemos asseverar aos nossos
leitores que elas não se realizarão, por duas razões: a repressão severa, e
porque conhecemos os jogadores do clube local, e sabemos de que espécie de
gente se compõe o seu corpo de associados, que tem a educação suficiente para
não se imiscuir com a torcida anonyma e apaixonada, como é a do Vasco da Gama”.
Na década de 1930, a imagem
do torcedor de clubes da zona norte como violentos é reforçada, e que os estádios da
região eram perigosos - construída nos jornais e pelos torcedores dos clubes da
zona sul, que, mesmo tendo estádios semelhantes (exceção do Flu e do Vasco), os
chamavam de “galinheiros”.
Mario Filho: “Quem
entrava em Figueira de Melo tinha de sair pelo corredor, os torcedores do São
Cristóvão brandindo bengalas e pedaços de pau (...) os brancos dos outros
clubes recebiam cachações na geral, na arquibancada, e no corredor de saída
corria até o risco de levar uma navalhada”.
Em
1932, no Olaria x Flamengo, na Rua Bariri, um cartola flamenguista reclamou:
“Pedi ao nosso diretor que mandasse guarnecer nosso arqueiro, pois os
assistentes lhe arremessavam tudo: pedras, cascas de laranja, garrafas”. Mario
Filho: “O time precisava levar seus torcedores, pois não tinha os locais.
Cruzavam a cidade em caravana”.
A elite sentia – e continua sentindo – pela torcida do Vasco – com sua base no
subúrbio – a raiva secular pelos pobres.
Diário Carioca:
“Botafogo e Vasco jogariam na Rua Figueira de Melo quando nos aspirantes (...)
a torcida do Vasco (sempre a mesma), não se conformou ante uma decisão do
árbitro, Sr. Bolivar Castro, do Fluminense, invadiu o campo e o agrediu (...)
como só ela sabe fazer”.
Em
1947, em Teixeira de Castro, no Bonsucesso x Fluminense, a torcida local
ficou tão irritada com as lambanças do juiz Alberto da Gama Malcher que perdeu
o bom senso: um desvairado acertou um soco nele, que desmaiou e foi levado a um
hospital para recompor o malar esquerdo.
ATUALIZAÇÃO
A
visão preconceituosa, manipuladora, em relação à torcida do Vasco atravessou as décadas e chega aos dias de hoje, estando presente na licitação do Maracanã.
Quem não é da zona sul não brinca no parquinho...
Os
vascaínos foram os maiores prejudicados com a demolição do velho Maracanã, a
construção e privatização da nova “arena”, em 2013, a as licitações – partes de
um único projeto macabro: a destruição dos espaços públicos, com a exclusão das classes populares.
FOTO - Revista Careta, 1933.